2 de outubro de 2018

Coleção Melhores Crônicas: Marina Colasanti


Mais uma vez imerso no oceano das crônicas; agora, diria passageiro de um ônibus na estrada da vida, cujas curvas revelam-se em linhas de textos breves, porém com sentimentos pulsantes de uma especialidade à parte. Mais uma vez, e outra, e outra... Parágrafos curtos, orações incisivas, emoções de uma vida costumeira e um olhar seletivo para a realidade. Assim se dá as crônicas de Marina Colasanti: como uma árvore carregada de frutos à beira do caminho. Mesmo não estando com fome, o viajante não sai de sua copa até se fartar. Ora doces, ora amargas, as crônicas da autora se revelam em maestria e nos conduz à via arborizada da literatura.
Qualquer leitor consegue perceber a paixão pela escrita que Marina possui e deposita em suas crônicas. Retrato de uma verdadeira cronista que enxerga de forma singular as nuances habituais do cotidiano. De temática abrangente, a autora recobre o imaginário refletindo sua artisticidade: contista, poeta, autora de livros infantis, lindos contos de fadas, desenhista, pintora... Sua sensibilidade e inteligência andam de mãos dadas e encontram a solidariedade, seja pelas pessoas, pelos bichos, pelas plantas, água dos mares ou brilho das estrelas. Enfim, uma autora sofisticada.


O exemplar é dividido em partes cuja, seleção foi feita por Marisa Lajolo — que também escreveu o prefácio, dizendo que a fragilidade e a volatilidade dos sentimentos e das emoções registradas são assumidas com o caráter fragmentado, já que o narrador não é onisciente nas crônicas de Marina. Esta característica entra na comparação com o ônibus em movimento: se os leitores são os passageiros, o narrador, talvez, pode ser o motorista que também não sabe o que encontrará na próxima curva da estrada. 
Um outro ponto a ser mencionado diz respeito às narrativas; transcorrem as histórias que, habitualmente, são passadas a limpo não de forma linear, mas oscilando em contrastes, migrando questões rotineiras, refletindo a vida ou a morte e enlaçando conspirações. Tudo isso sempre com um olhar solidário. Em síntese, Marina leva seus leitores a experienciarem o know-how da linguagem que torna estranho aquilo que é conhecido e vice-versa. Carlos Drummond de Andrade, ao escrever sobre a autora, disse que "sua contenção verbal chega ao máximo, não há sinal de mais ou de menos".
De fato, Marina Colasanti é uma das maiores escritoras brasileiras — nascida na Itália — que dedicou sua vida ao ofício. Sua obra é um orgulho para o acervo nacional. O exemplar aqui abordado foi publicado pela Global Editora na Coleção de Melhores Crônicas, e sua organização potencializa uma boa experiência de leitura. Finalizando a perícia e as impressões, faço das palavras de Marisa Lajolo as minhas: "a cronista põe no texto um pouco da vida de todos nós, passageiros de um ônibus, em cujo percurso ela vai assinalando paisagens. As dela e, nas dela, as nossas...".

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