15 de outubro de 2018

São Damião de Veuster e os Leprosos


Joseph Damien de Veuster (1840-1888) foi um jovem padre belga que se dedicou a cuidar de uma colônia de leprosos em Molokai, no Havaí. Chales W. Stoddard, residente no Havaí e autor do presente relato, visitou a colônia de Melokai em companhia de dois médicos do governo, em 1884.

À primeira vista, Kalawao parece ao visitante uma próspera aldeia de quinhentos habitantes, se tanto. A única rua é margeada de chalés brancos com jardins floridos e graciosas árvores tropicais. Está situada tão perto da encosta que mais de uma vez as grandes pedras soltas pelas chuvas rolaram alto da montanha até as cercas nos limites da aldeia.
Ao passarmos pela rua, o dr. Fitch era cumprimentado por todos. Sua visita mensal já era esperada e sucediam-se as saudações de "Aloha!", partindo de todas as portas varandas e janelas.Um grupo mais entusiástico jogava os chapéus para o alto dando vivas ao "Keuka" (o doutor), entremeando a animação com risadas infantis. 
Até então, a breve visão dos habitantes nos dava a impressão de formarem a comunidade mais feliz na face da terra. Mas não esqueçamos de que chegamos no lusco-fusco do final da tarde, e nossa presença era a sensação do momento. 
Na estrada entre a aldeia e o mar havia uma pequena igreja; a cruz erguida no modesto campanário e o cruzeiro no cemitério além nos diziam que os habitantes tinham assistência espiritual na hora extrema. 
À nossa aproximação, o portão do jardim da igreja foi aberto por um bando alegre e garotos que, com chapéu na mão, nos davam boas-vindas. Só então notamos que eram todos desfigurados: tinham cicatrizes e marcas no rosto, pés e mãos mutilados, alguns sangrando, olhos de animal semidomesticado, boca sem forma definida. O aspecto geral de alguns chegava a ser repulsivo.
Eram leprosos, assim como todos os outros que nos saudaram na passagem pela vila. Assim como todos, com raras exceções, que habitavam as duas aldeias na base dos rochedos à beira do mar.
Outros leprosos nos cercaram ao entrarmos no jardim. Amontoavam-se nos degraus da igreja — pois são raras as visitas a Kalawao —, e, à medida que surgiam mais e mais, parecia que cada recém-chegado era ainda mais horrível que o anterior, que a deterioração não tinha limites, que o sofrimento da carne não alcançaria indignidade maior deste lado do túmulo. Afastavam-se espontaneamente à medida que avançávamos e tornavam a se unir atrás de nós, mantendo-nos no centro de um círculo.
A porta da igreja se abriu e um jovem padre parou à soleira para nos receber. Vestia uma batina surrada, tinha os cabelos desalinhados como um garoto, mãos duras de trabalhador. Mas o brilho da saúde em seu rosto, a alegria da juventude, o riso jovial, a simpatia e o magnetismo que irradiava deixavam claro que faria um trabalho nobre em qualquer esfera. E, na esfera que escolhera, fazia o mais nobre de todos os trabalhos.
Este era o padre Damião, sacerdote auto-exilado, única pessoa não-contaminada na colônia de leprosos.
Nasceu em Louvaine, Bélgica, em 3 de janeiro de 1840. Quando tinha vinte e quatro anos, seu irmão, recém-ordenado sacerdote, recebeu ordem de embarcar para Honolulu, mas na última hora foi atacado de febre tifoide.O jovem Damião, então estudante de teologia na universidade e postulante da mesma ordem — a Sociedade do Sagrado Coração de Jesus e Maria —, escreveu imediatamente ao seu superior, pedindo que o enviasse em lugar do irmão. Uma semana depois, estava a caminho. Foi ordenado ao chegar em Honolulu e passou alguns anos na vida de trabalho e privações típicas dos missionários católicos.
Em 1873, juntamente com outros clérigos, foi convidado para comparecer à consagração de uma bela igreja construída pelo padre Leonor em Wailuku, na ilha de Mauí. Lá ele encontrou o bispo, que expressou seu pesar por não ter conseguido ainda um padre para Molokai, pois havia maior demanda do que disponibilidade. E padre Damião disse:
— Senhor bispo, ouvi dizer que um barco partirá de Kewaihae na próxima semana para Kaulapapa. Se me der permissão, posso fazer os ofícios da Páscoa para os leprosos.
A permissão foi concedida e, em companhia do bispo e do cônsul francês, Damião desembarcou na colônia de oitocentos leprosos, sendo mais de quatrocentos católicos. Foi conclamada uma reunião pública presidida pelo cônsul e pelo bispo, que assim se dirigiu aos presentes:
— Tendo em vista que várias vezes vocês me escreveram pedindo um sacerdote, este ficará aqui por algum tempo.
Abençoando os fiéis, voltou imediatamente para o barco, que estava pronto para partir.
— Há tanto trabalho para fazer aqui — disse Damião ao bispo — que não o acompanharei no barco.
Assim, sua obra começou no momento em que chegou. Já era tempo. Morriam de oito a doze leprosos por semana. O padre não teve tempo sequer de construir uma cabana para morar — nem tinha material para isso —, e durante aquela estação dormiu ao ar livre, sob uma árvore, exposto ao vento e à chuva. 
Pouco tempo depois recebeu uma carta de congratulações de residentes em Honolulu — a maioria protestante —, acompanhada de boa quantidade de madeira e 120 dólares. Pôde então construir uma pequena casa.
Após algumas semanas em Kalawao, foi obrigado a ir a Honolulu, já que ali não tinha outro sacerdote a quem se confessar.
Damião naturalmente se reportou ao diretor do Departamento de Saúde, que ficou muito surpreso e recebeu o padre com fria polidez. Pediu autorização para retornar a Molokai e foi informado sucintamente de que certamente poderia retornar, desde que fosse em termos definitivos.
As tarefas do padre não tinham fim. Ficava ocupado desde a missa, nas primeiras horas da manhã, até muito depois de seu rebanho estar dormindo. E, quando enfim punha a cabeça no travesseiro, era comum ficar acordado fazendo planos ou ser chamado para aliviar o sofrimento de um moribundo.
Os chalés brancos que substituíram as choupanas toscas foram construídos sob sua supervisão. A pequena capela que encontrou na aldeia foi ampliada para se tornar a atual igreja. Com a ajuda de um grupo de leprosos, ele mesmo se encarregou da construção, da pintura e da decoração. Diariamente oferecia o santo sacrifício da missa, dava aulas de catecismo às crianças e desempenhava todos os ofícios da igreja.
Era um verdadeiro pau-pra-toda-obra: médico da alma e do corpo, magistrado, mestre-escola, carpinteiro, pedreiro, pintor, jardineiro, dono-de-casa, cozinheiro e, em alguns casos, agente funerário e coveiro. Grande era sua necessidade de ajuda. Mais de mil e seiscentos leprosos tinham sido enterrados sob sua administração, e havia sempre um moribundo à espera dele — às vezes dois ou três.
Lembro-me de que, enquanto percorríamos a enfermaria do hospital em Kalawao, padre Damião virou-se subitamente e disse:
— Ah, tem uma coisa terrível que preciso mostrar a vocês!
Chegamos a um monte de trapos, parecendo lixo, escondido sob um lençol sujo. Os médicos, curiosos, se acercaram para examinar, e o bom padre me segurou, dizendo:
— Não olhe! Não deve olhar!
Tranquilizei-o dizendo que não tinha medo do que poderia ver, pois meus olhos tinham se acostumado a horrores, e as piores visões não me impressionavam. Levantou cuidadosamente uma ponta do lençol. Um objeto vivo jazia ali: um rosto foi virado em nossa direção — um rosto que mal tinha traços humanos. A pele escura estava negra de pústulas, cobertas de matéria terrosa e gosmenta. Os músculos da boca, contraídos, deixavam à mostra todos os dentes, e a língua inchada parecia um figo. As pálpebras tinham se retraído de modo a expor a superfície interna dos olhos, e os globos oculares protuberantes, amorfos, lembravam uvas abertas.Era uma criança leprosa que há poucos dias tinha se transformado naquela visão horrível. Certamente o túmulo não conhece nada pior!
Uma vez fui sozinho à igreja. Havia um pequeno órgão perto da janela aberta, da qual se via a árvore que dera abrigo a padre Damião nos primeiros meses em Kalawao. Sentei-me no banco do órgão, brincando com as teclas, pensando que espécie de vida se podia ter naquele lugar, na necessidade e na falta de solidariedade humana, na solidão da alma destinada a uma comunhão perpétua com a morte — e, ouvindo um ruído atrás de mim, virei-me e vi a nave cheia de leprosos, que, um após outro, tinham sido atraídos pelo órgão. A situação era surpreendente. Perguntei onde poderia encontrar padre Damião e eles me indicaram, afastando-se para me deixar passar. 
Encontrei-o trabalhando, como sempre, com um grupo de homens; era o mais energético de todos. Aproximei-me sem me fazer notar, e logo o sino tocou na hora do ângelus. No mesmo instante todos se ajoelharam, descobrindo a cabeça. O padre disse a bela prece e eles respondiam em voz baixa, grave — enquanto a brisa suave espalhava folhas largas e o sol jorrava uma auréola de glória sobre as cabeças curvadas. Leprosos todos, à exceção do bom pastor, que em breve seguiriam a última procissão, os corpos imóveis abençoados no sono da paz.
Angelus Domini! Não era a visão mais cara aos olhos de Deus?

Pouco depois da visita de Stoddard, padre Damião descobriu que estava com lepra. Viveu mais quatro anos, trabalhando até o fim.

7 de outubro de 2018

7 Princípios do Líder Revolucionário, de Hugh Blane


O conceito de liderança se define pela arte de comandar pessoas, atrair seguidores e influenciar de forma positiva as escolhas e ações de um ou mais indivíduos. Está nas organizações que precisam de líderes para comandar suas respectivas produções, projetos, ideias, entre outras questões. O fato é que a liderança não nasce intrínseca a todos os seres humanos; muitas vezes tendo que ser conquistada, aperfeiçoada e exercitada. Salvo raríssimas exceções de líderes virtuosos que sabem extrair de dentro de si por conta própria a capacidade de liderar, traçando o caminho junto à equipe e dando o exemplo prático para que a mesma não se desmotive. Desse modo, a maior parte das pessoas precisa encontrar meios que façam germinar em si o espírito de liderança, tal como a força de vontade. Se instruir é um caminho válido para atingir tal objetivo, e tendo em vista esta presunção, vários autores já escrevam livros como guias para se conquistar a arte de liderar, como no caso de Hugh Blane, consultor internacional de empresas importantes, que escreveu o livro 7 Princípios do Líder Revolucionário, buscando elucidar as dúvidas e traçar um novo itinerário que leva seus leitores a desenvolverem o potencial a fim de obterem sucesso em seus planejamentos.
A obra busca apresentar conceitos fundamentais para haver a compreensão necessária do que é ser um líder verdadeiro, não sendo confundido com um mero mandante. Além disso, são abordados conceitos práticos de liderança que conduzem o leitor a desenvolver sua performance perante as dificuldades de liderar junto ao relacionamento interpessoal — que é a relação de envolvimento entre duas ou mais pessoas sobre determinado objetivo; muito comum em empresas e organizações. Blane analisa o termo mindset e faz dele o sentido que conduz o exemplar à sua conclusão, tratando-se de um modelo mental que se desenrola dentro de nossa consciência a fim de se tornar um trunfo de obtenção do sucesso.


Nesta perspectiva, o autor busca desenvolver o potencial de seus leitores, seja por meio de ideias inovadoras, direcionamentos, atenção às prioridades, diligência pela excelência e, é claro, depositando paixão ao ofício. É por meio do mindset que se dá a transformação e compreensão dos princípios abordados no exemplar, sendo eles o propósito, a promessa, os projetos, a persuasão, o elogio, a perseverança e a preparação.
Mesmo sendo uma obra direcionada aos negócios e ao mercado corporativo, muitas informações são úteis para a vida pessoal. O fato de poder coordenar a mente ao otimismo e ao sucesso, abrangendo a visão às possibilidades de ação, não se restringe apenas aos executivos que buscam o desenvolvimento de suas empresas. O dinamismo do livro junto à sua edição contribui muito para uma leitura confortável e de fácil compreensão, sendo ele publicado no Brasil pela Universo dos Livros. Posso concluir esta análise dizendo que, além de tudo o que já relatei, tais princípios nos ajudam a sair do lugar para conquistarmos avanços significativos em nossos projetos de forma inspiradora. De acordo com as palavras de John Felkins, aqueles que aplicam estes métodos, dominam uma vida mais gratificante e diminuem a distância entre o lugar em que estão hoje e o lugar onde aspiram estar amanhã.

5 de outubro de 2018

Irmão Pedro e o Lagarto de Esmeralda


Irmão Pedro viveu na Guatemala há muitos séculos, mas o bem que ele fez vive ainda hoje na história do seu trabalho.
Era pobre e continuou pobre a vida inteira, pois dava tudo o que tinha aos necessitados. Transformou a própria casa, pequena e humilde, num lugar de tratamento para os doentes. Dizem que à noite percorria as ruas tocando um sininho para lembrar às pessoas de agradecer a Deus e compartilhar as graças recebidas.
Certo dia Irmão Pedro estava indo para a cidade e encontrou um homem muito pobre sentado à beira da estrada. Ao ver Irmão Pedro, o homem enxugou disfarçadamente uma lágrima. 
— Por que está tão aflito, amigo? — perguntou Pedro, percebendo o desespero do outro. 
— Estou com problemas sérios — disse o homem. — Minha mulher está doente e precisa de remédios.
Meus filhos estão passando fome, mas não tenho dinheiro e não encontro trabalho. Não sei o que fazer. Irmão Pedro olhou para o rosto sofrido e desejou ajudar. Mas suas roupas também estavam muito surradas, sua despensa também estava vazia e seu bolso mais ainda. Não tinha nada para dar. 
Levantou os olhos, procurando uma solução. O calor do sol se espalhou pela face bondosa. 
— Meu Deus — disse ele —, me ajude a ajudar esse homem. 
Ouviram um barulhinho; um lagarto verde surgiu de trás de uma pedra e pulou na estrada. Irmão Pedro pegou o lagarto pela cauda, com um sorriso, pôs o bichinho na mão do companheiro. 
O pobre homem olhou espantado para Irmão Pedro. Então abriu a mão e ficou muito mais espantado.
O lagarto tinha ficado duro e mais pesado, mas continuava verde. O homem examinou com atenção e viu o milagre. A criatura viva tinha se transformado num lagarto de pura esmeralda. 
— Venda o lagarto — disse Irmão Pedro — e compre os remédios para sua mulher e comida para seus filhos. Se sobrar dinheiro, ainda pode ajudar alguém que precise. O homem ficou muito grato e obedeceu. Correu a um joalheiro e vendeu a rara esmeralda por muito dinheiro. Com os remédios e a comida, sua família tornou a ficar forte e saudável. Os anos se passaram. O homem trabalhou muito. Seus filhos cresceram, prosperaram e se tornaram ricos fazendeiros. A fortuna da família continuava a crescer sempre, mas eles levavam uma vida discreta e sensata. Cuidavam dos pais idosos e davam boa parte da fortuna para ajudar os pobres. 
Chegou um dia em que o pai, já bem velho, voltou à joalheria onde vendera o lagarto milagroso.
Comprou a joia de volta e foi visitar Irmão Pedro. O bom velhinho estava mais pobre, suas roupas mais surradas e seus cabelos mais brancos. Mas o rosto enrugado era só bondade. 
— Lembra de mim, padre? — perguntou o visitante. 
Irmão Pedro olhou atentamente o estranho, procurando na memória. 
— Encontrei-o na estrada, muitos anos atrás. Minha mulher estava doente, meus filhos passavam fome. 
Irmão Pedro balançou a cabeça. Era a história de tantos! 
— O senhor me deu um lagarto de esmeralda e me disse para vendê-lo. 
A face do Irmão Pedro se iluminou. 
— Claro, claro. E como estão as coisas? Como está sua mulher? E seus filhos? 
— Estão bem — respondeu o homem. — Vim devolver sua esmeralda. 
Trouxe riqueza e prosperidade à minha família. O senhor passou a vida a serviço de outros. Tome a esmeralda, e descanse. Pode vendê-la, como fiz, e ter uma vida mais confortável. 
Tirou o lagarto do bolso e colocou na mão do velhinho. 
Irmão Pedro sorriu e pôs a joia no chão. Imediatamente o lagarto criou vida e desapareceu debaixo de uma pedra.

2 de outubro de 2018

Coleção Melhores Crônicas: Marina Colasanti


Mais uma vez imerso no oceano das crônicas; agora, diria passageiro de um ônibus na estrada da vida, cujas curvas revelam-se em linhas de textos breves, porém com sentimentos pulsantes de uma especialidade à parte. Mais uma vez, e outra, e outra... Parágrafos curtos, orações incisivas, emoções de uma vida costumeira e um olhar seletivo para a realidade. Assim se dá as crônicas de Marina Colasanti: como uma árvore carregada de frutos à beira do caminho. Mesmo não estando com fome, o viajante não sai de sua copa até se fartar. Ora doces, ora amargas, as crônicas da autora se revelam em maestria e nos conduz à via arborizada da literatura.
Qualquer leitor consegue perceber a paixão pela escrita que Marina possui e deposita em suas crônicas. Retrato de uma verdadeira cronista que enxerga de forma singular as nuances habituais do cotidiano. De temática abrangente, a autora recobre o imaginário refletindo sua artisticidade: contista, poeta, autora de livros infantis, lindos contos de fadas, desenhista, pintora... Sua sensibilidade e inteligência andam de mãos dadas e encontram a solidariedade, seja pelas pessoas, pelos bichos, pelas plantas, água dos mares ou brilho das estrelas. Enfim, uma autora sofisticada.


O exemplar é dividido em partes cuja, seleção foi feita por Marisa Lajolo — que também escreveu o prefácio, dizendo que a fragilidade e a volatilidade dos sentimentos e das emoções registradas são assumidas com o caráter fragmentado, já que o narrador não é onisciente nas crônicas de Marina. Esta característica entra na comparação com o ônibus em movimento: se os leitores são os passageiros, o narrador, talvez, pode ser o motorista que também não sabe o que encontrará na próxima curva da estrada. 
Um outro ponto a ser mencionado diz respeito às narrativas; transcorrem as histórias que, habitualmente, são passadas a limpo não de forma linear, mas oscilando em contrastes, migrando questões rotineiras, refletindo a vida ou a morte e enlaçando conspirações. Tudo isso sempre com um olhar solidário. Em síntese, Marina leva seus leitores a experienciarem o know-how da linguagem que torna estranho aquilo que é conhecido e vice-versa. Carlos Drummond de Andrade, ao escrever sobre a autora, disse que "sua contenção verbal chega ao máximo, não há sinal de mais ou de menos".
De fato, Marina Colasanti é uma das maiores escritoras brasileiras — nascida na Itália — que dedicou sua vida ao ofício. Sua obra é um orgulho para o acervo nacional. O exemplar aqui abordado foi publicado pela Global Editora na Coleção de Melhores Crônicas, e sua organização potencializa uma boa experiência de leitura. Finalizando a perícia e as impressões, faço das palavras de Marisa Lajolo as minhas: "a cronista põe no texto um pouco da vida de todos nós, passageiros de um ônibus, em cujo percurso ela vai assinalando paisagens. As dela e, nas dela, as nossas...".

30 de setembro de 2018

Folclore Africano: Por que os polegares são isolados?


Há muito tempo, reza-se a lenda de que os cinco dedos ficavam bem juntos na mão, lado a lado. Eram rodos amigos. Aonde um ia, seguiam os outros. Trabalhavam juntos, brincavam juntos; lavavam, escreviam e cumpriam seus deveres juntos. 
Um dia, os cinco dedos estavam descansando juntos numa mesa quando espiaram um anel de ouro largado ali perto. 
— Que anel brilhante! — exclamou o Primeiro Dedo.
— Ficaria lindo em mim — declarou o Segundo Dedo.
— Vamos pegá-lo! — sugeriu o Terceiro Dedo.
— Depressa! Agora, que ninguém está olhando! — cochichou o Quarto Dedo.
Já iam pegar o anel quando o Quinto Dedo, chamado Polegar, falou:
— Esperem! Não devemos fazer isso! — gritou.
— Por que não? — perguntaram os outros quatro dedos.
— Porque o anel não nos pertence — disse o Polegar. — É errado pegar uma coisa que não é sua. 
— Mas quem vai saber? — perguntaram os outros dedos. — Ninguém vai nos ver. Vamos!
— Não! — disse o Polegar. — Isso é roubo.
Então os outros quatro começaram a rir e a zombar do Polegar.
— Você está é com medo! — disse o Primeiro Dedo.
— Ai, que bonzinho que ele é... — disse o Segundo Dedo.
— Você está é com raiva porque o anel não vai lhe servir — resmungou o Terceiro Dedo.
— Nós achávamos que você era mais divertido — disse o Quarto Dedo. — Pensávamos que você era nosso amigo.
Mas polegar balançava a cabeça.
— Não ligo para o que vocês falam — respondia. — Eu não vou roubar.
— Então não fique mais junto de nós! — gritaram os outros quatro dedos. 
— Você não pode ser mais nosso amigo.
E saíram em grupo, deixando o Polegar sozinho. No começo, acharam que ele iria segui-los e implorar para voltar e ficar junto. Mas o Polegar sabia que estavam errados e ficou leal aos seus princípios.
E por isso que, hoje, o polegar fica isolado dos outros quatro dedos.