Coleção Melhores Crônicas: Ferreira Gullar


Nesse período onde o patriotismo está corrompido pelo acrimonioso efeito de valores egoístas e segregado pela constante busca de autoafirmação, a arte surge como o itinerário que nos leva a ver os problemas do alto, dando-nos um novo ângulo e, consequentemente, aumentando nosso campo de visão. Digo isso pois o Brasil, nosso tão amado país, destaca-se nesse aspecto de gerar gênios capazes de abranger a erudição através de suas criações, ainda que poucos, comparados ao número total de pessoas vivendo nas terras das palmeiras onde cantam os sabiás. Mas somos, de fato, privilegiados por nossa literatura, tratando-se de uma característica para nos orgulharmos, já que partindo do pressuposto de que a genialidade se faz por meio de uma simples pergunta, um cronista ao certo se indagaria do conceito de crônica antes de tocar a caneta ao papel. Sim, meus amigos, Ferreira Gullar foi um desses gênios que nos levou em seus pensamentos elucubrados nas palavras de seus texto.


É interessante analisar uma seleção de crônicas e perceber que a compilação de fatos presentes no livro ganha uma forma inortodoxa daquilo que se vive. A experiência adquire nuances profundas ainda que marcadas pela brevidade do tempo. Ora, afinal de contas, o processo de escrita do cronista assemelha-se ao de extrair uma pedra preciosa de uma mina, já que os sentimentos intrínsecos ao artista ganham valor e raridade em meio à trivialidade corriqueira. Por isso, o saudoso Ferreira Gullar nos surpreende com seus textos assim como um garimpeiro se surpreende ao encontrar um diamante em meio às rochas sem valor.


O próprio escritor já dizia sobre os males da estilização, já que ao aderi-la na escrita, deixava-se de lado o sentimento e a expressividade do artista, dando espaço à formalidade cansativa e dispensável no que diz respeito às crônicas. Embora se considerasse como um aprendiz, Gullar desempenhava com maestria o ofício de cronista, em tramas pouco definidas e extraídas do cotidiano imediato. Assim, enlaçava a realidade sem pretensão ou convencimento de seu dom e a transformava num casulo de peripécias que se abria ao alvorecer.


Enfim, trata-se de uma obra para ser lida e sentida; olhar de um outro ponto de vista a partir da perspectiva do autor; exercer a capacidade analítica da realidade e apurar os conceitos de qualidade literária. Todo leitor tem um cronista velado dentro de si, podendo ser despertado pela sensibilidade e presteza daquele que fez história no conceito literário nacional. Seja pela problemática social ou ações rotineiras, pela contemplação audaz do ser humano ou mesclagem de sentimentos distintos, Gullar fazia-se presente na escrita e a escrita fazia-se presente em Gullar.


Não posso deixar de comentar sobre a primazia da edição publicada pela Editora Global que reúne as crônicas daquele que foi postulante da cadeira 37 na Academia Brasileira de Letras. Os textos foram selecionados por Augusto Sérgio Bastos, que fez um trabalho excepcional para conseguir reunir num só lugar as particularidades do escritor que nos deixou em 2016. Entre a graça e o absurdo, o poético e o prosaico, as crônicas se desenrolam diretamente sob o choque emocional revelado por um lapso de segundo àquele que conquistou a imortalidade ao fazer da caneta seu instrumento de trabalho.

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Nome: Coleção Melhores Crônicas: Ferreira Gullar
Seleção: Augusto Sérgio Bastos | Editora: Global
Publicação: 2004 | Páginas: 254
Sobre: Apresenta 92 crônicas em que o autor faz um tour por onde já passou, como diz o organizador da antologia: 'As crônicas de Gullar passeiam por suas cidades desde São Luís, a recorrente e interminável paixão, até o Rio de Janeiro, a consciência do artista'. As agruras e o pitoresco do exílio também estão presentes neste volume que é aberto com o clássico texto intitulado Crônica.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 23 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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