Platão no Googleplex, de Rebecca Newberger Goldstein


Ao longo de inúmeras análises que fiz nos últimos tempos, sempre frisei o fato de gostar das obras capazes de unir extremos, tal como um romance que une ficção e realidade. A questão principal dessa vez não está nas páginas de um enredo corrido ou numa narrativa com princípio, meio e fim, mas sim em um exemplar filosófico capaz de mesclar pensamentos antigos e contemporâneos no mesmo contexto, cujo personagem principal é ninguém menos que o ateniense do período clássico da Grécia Antiga: Platão.


E isso reflete a genialidade da autora, Rebecca N. Goldstein, Ph.D. em filosofia, que escolheu justamente o filósofo que não criava tratados, ensaios ou questões que propõem posicionamentos, mas, ao invés disso, diálogos — que convenhamos não ser apenas trabalhos acadêmicos, mas também uma atividade literária extremamente importante para o desenvolvimento da mãe das ciências —, usando toda sua sabedoria tal como um artista que cria suas obras, o que faz dele o protagonista ideal para o livro.


Vamos levar em consideração, também, o fato da empresa Google ser, nos dias atuais, a maior fonte de conhecimento existente, cuja praticidade simplifica o ofício de estudiosos e pesquisadores. Sua sede, em Mountain View, Califórnia, é conhecida como Googleplex; complexo tido como o coração dessa gigante ferramenta dos indivíduos ávidos do saber. Já imaginou Platão, que viveu há 2.400 anos, andando por seus corredores? Eu confesso que jamais teria essa perspicácia. Por isso o livro foi uma verdadeira surpresa que gerou muitas horas de reflexões descontraídas em meio às páginas de linguagem simplificada.
O que torna o exemplar mais divertido, é justamente a possibilidade de acompanhar Platão maravilhosamente adaptado aos seus ambientes desconhecidos, que chega a especular a função de vários pensadores antigos, se tivessem a oportunidade de usar a internet a seu favor. Toda essa abrangência de público que a obra possibilita, condiz com os diálogos acessíveis de Platão para inúmeras pessoas. De acordo com o New York Times, o exemplar é como uma carta de amor que Goldstein escreveu ao filósofo, cuja importância ao seu ver é tão grande, a ponto de considerá-lo como o criador da filosofia que conhecemos hoje.


Essa ambiciosa apologia filosófica, erudita e lindamente escrita, é organizada em uma série de capítulos que dizem respeito à filosofia de Platão junto aos detalhes relevantes de sua vida e tempo. O protagonista aborda questões morais e epistêmicas levantadas pela tecnologia da internet, com suas reações mais típicas aos aspectos turbulentos e ridículos da natureza humana.
Outro ponto a ser levado em conta, também, é que Goldstein é romancista; ou seja: capaz de conduzir o leitor muito bem por entre as páginas do exemplar. E uma das questões interessantes colocadas pela autora é justamente o avanço das ciências desde o nível subatômico às galáxias mais distantes, da genética para as estruturas do cérebro que apoiam o pensamento, a emoção e a moralidade junto ao papel da filosofia frente a isso tudo. E é exatamente dentro desse contexto que o subtítulo do livro faz efeito em relação ao conteúdo. 


Eu poderia me aprofundar muito mais nos conceitos acadêmicos dessa análise, a ponto de referenciar mais a obra com suas características marcantes, mas acredito que já tenha passado sua essência, respeitando minha posição de "apreciador da filosofia" e não como um especialista. Digo isso para ressaltar mais uma vez que o exemplar abrange seu público imensamente, e ouso dizer que aquele que afirma não gostar de filosofia, depois de ter essa experiência de leitura, irá rever seus conceitos, uma vez que Goldstein conseguiu a proeza de trazer diversão à sua escrita. Isso sem contar a edição memorável da Civilização Brasileira que contribui muito para uma leitura mais confortável. Em síntese, finalizo mencionando a passagem que afirma estar escrito amor no termo "filosofia": o amor pelo conhecimento; já que as horas de leitura depositadas me deram de presente a reflexão necessária para despertar a gratidão de poder pensar e, consequentemente, aprender algo novo a cada dia.

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Título: Platão no Googleplex: Por que a filosofia não vai desaparecer
Autora: Rebecca Newberger Goldstein
Editora: Civilização Brasileira
Publicação: 2017 | Páginas: 532
Sobre: Imagine que Platão ganhou vida no século XXI e embarcou em uma turnê multicultural. Com a profundidade de uma filósofa e a imaginação e o espírito de uma romancista, Goldstein examina os problemas mais profundos que nos confrontam, permitindo-nos espreitar a Platão enquanto ele passeia pelo mundo moderno.

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Sobre Pena Pensante

Editor e resenhista do Pena Pensante, 23 anos, graduado em relações internacionais e autor do livro de poesias Entre Asas e Raízes.
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2 comentários:

  1. Amo a forma com que você conduz suas resenhas, passando as partes mais importantes sem enrolar. Muito obrigado!!!

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    1. Fico extremamente feliz ao saber disso, Evaristo! Grande abraço e muito obrigado por seu comentário.

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