Não Me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro


Em 2017, o autor Kazuo Ishiguro foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura por descobrir em seus romances de grande força emocional, o abismo sob o nosso ilusório senso de conexão com o mundo. Nascido no Japão, mudou-se para a Inglaterra aos cinco anos de idade e se tornou um dos mais célebres autores de ficção da língua inglesa, sendo contemplado com diversos outros prêmios por suas obras. Não Me Abandone Jamais talvez seja o livro de maior destaque de Ishiguro por ter sido considerado pela Time Magazine em 2010 como o romance da década. Segundo o autor, ter a oportunidade de crescer em solo inglês, mantendo suas raízes orientais, foi crucial para sua forma de escrever, já que contribuiu para o desenvolvimento de uma visão diferenciada; uma perspectiva que muitos de seus pares britânicos não tinham. Assim, ter a oportunidade de falar sobre um de seus livros é uma honra para mim, que assumo o papel de resenhista e leitor na mesma pessoa.


O itinerário de sua narrativa nos leva por acontecimentos comoventes, oscilando suas emoções no campo da perda e da solidão; refletindo seus mistérios entre perguntas assustadoras e respostas dolorosas. Esse introdução já ilustra a frase que a Academia Sueca utilizou quando lhe atribuiu o Nobel. E, de fato, a obra não se limita do campo da realidade, transbordando a imaginação do autor e entrando na classificação de distopia.


Falando sobre um aspecto importante que vai se revelando aos poucos na mente do leitor à medida em que ele avança na leitura, é a vinculação entre "cuidadores" e "doadores". Ora, que importância teria esses termos, sendo eles tão abrangentes? Ao longo do livro, vamos polindo essas duas facetas e revelando uma encarrilhada carga de anseios assombrosos que diz respeito aos limites dos seres humanos, e até onde são capazes de ir para satisfazerem suas próprias vontades. Com sentimentos revelados a cada parágrafo, o livro se faz como uma fonte de reflexão a respeito das barreiras da vida e do tempo que nos é dado.


A história é passada por meio das lembranças de Kathy e seus relatos de "cuidadora". Conhecemos sua infância no internato de Hailsham e seu primeiro contato com os personagens Ruth e Tommy, que assumem papel importante no desenvolvimento do enredo. É sabido que crianças dessa escola no interior da Inglaterra são preparadas para se tornarem "doadoras".  A amizade dos três personagens toma uma caráter estreito e complicado, e isso se agrava quando descobrem o seu verdadeiro propósito de vida. Os anos vão se passando e as coisas acontecendo; reflexos das experiências da infância são despertados na mentalidade da vida adulta e a narrativa se envolve em mistério, instigando o leitor a prosseguir cada vez mais.


Não é uma obra onde posso esmiuçar seus feitos livremente, já que quanto menos se sabe a respeito, mais interessante a leitura se torna.  Mas posso afirmar que Ishiguro não ganhou o Nobel à toa; de fato, sua escrita possui uma especialidade singular e cativante, junto às particularidades que compõe o seu acervo. Extremos que caminham paralelamente: o sentimento humano e a tecnologia programada; ambos com o designo servil, frio e calculista.
Em síntese, firmo o fato do exemplar nos levar aos precipícios da mente, cuja visão do alto resume-se numa queda assustadora no breu dos pensamentos insólitos. A nova edição publicada pela Companhia das Letras contribui para uma leitura muito mais confortável e aprofundada, tanto nos termos de sua diagramação quanto no conceito artístico, que repercuti a maestria da relação entre o conteúdo do livro e a arte da capa. Resumindo a minha experiência com a obra, digo que suas palavras são como uma corrente que enlaça os leitores para junto de seu conteúdo, fazendo cada um ter uma vivência marcante em meio aos acontecimentos, refletindo inquietação e despertando dúvidas a respeito da realidade.

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Título: Não me Abandone Jamais
Autor: Kazuo Ishiguro | Editora: Companhia das Letras
Edição: 2017 | Páginas: 344 | Esse livro no Skoob
Sobre: Crianças costumam ser levadas a acreditar que são especiais. Mas os alunos de Hailsham, internato inglês, são tão especiais que vivem encobertos em mistérios. De onde vêm? Para onde vão? Assim como essas crianças, que tem de descobrir por conta própria o que há de estranho em suas vidas, o leitor juntará as postas que vão sendo deixadas ao longo da narrativa. Não me abandone jamais é uma obra-prima de atmosfera e alusões.
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Sobre Pena Pensante

Filipe Penasso: Editor e resenhista do Pena Pensante, graduado em relações internacionais e autor do livro de poesias Entre Asas e Raízes.
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