Nas águas desta baía há muito tempo: Contos da Guanabara


Não é novidade o meu imenso apreço por contos dos mais diversos estilos, e isso se dá pelo fato de conseguirem condensar suas emoções em poucas palavras buscando garantir uma breve, porém profunda, experiência aos leitores. E tal característica ainda é enriquecida pela concisa perícia do autor capaz de reduzir seus textos ao essencial sem perder a maestria da arte na narrativa. Ou seja: contos, para mim, são frutos de sentimentos refletidos em lapsos momentâneos, eternizados pelo suave toque da tinta no papel.


Muitos são os leitores que começaram suas jornadas literárias através de um conto, pois nele encontraram a forma perspicaz e direta que buscavam para embarcarem no imenso oceano dos livros. E o interesse se potencializa quando há a junção daquilo que foi com aquilo que é, tal como as águas de uma baía, há muito tempo. Ainda que permaneça a mesma, os olhos que a veem em meio às suas águas já não são os mesmos, nem tampouco as vozes que ecoam junto à brisa da manhã. E são essas mesmas vozes que Nei Lopes busca eternizar em seu livro, mesclando a agudeza da alma com as memórias de um passado distante perdido na noite do tempo.


Desse modo, a obra é considerada uma viagem temporal que leva os afortunados leitores à Guanabara de outrora. E o questionamento sobre a veracidade dos contos presentes nas páginas escritas por Lopes não possui relevância em meio ao bordado de palavras que desperta as emoções nostálgicas de algo que não experienciamos, como lembranças de um tempo em que não vivemos. Sim, é exatamente isso: a empatia por personagens, cenários e costumes que jamais veríamos nos dias atuais, levando a consciência num itinerário paralelo à sensação de polir uma pedra há muito enterrada.


Seus contos são agridoces por mesclarem realidade e ficção. Assim, conseguem garantir a particularidade necessária para conquistarem as estáticas opiniões que escolhem apenas um extremo para seguir, ou seja: aqueles que gostam de ficção não se misturam com aqueles que preferem a realidade; entretanto, os Contos da Guanabara conseguem unir essas duas vertentes. Somente autores com extremo domínio da arte de escrever fazem isso com maestria; além do mais, o aprendizado histórico que o livro nos concede é imenso, desde a visão indígena que via a baía como o seio do mundo até o badalar do termo carioca que começa a soar suas especificidades em meio aos parágrafos.


Essa viagem literária é capaz de transportar leitores de todos os estilos, pois a mesma revela um Rio de Janeiro absconso em seus mistérios selvagens, que evidencia denominações incomuns em seus elementos. Isso se dá tanto pelo vocabulário que Lopes usou em seus textos quanto pelos nomes dos personagens que caminham na história e trazem suas experiencias para as páginas. E sobre isso, posso sintetizar a bagagem em poucas palavras: como obra que enriquece o acervo nacional. Finalizando com minha opinião, parabenizo a edição publicada pela Editora Record nos conceitos artísticos e em sua diagramação, o que enriquece a obra e garante uma leitura mais concentrada com total aproveitamento dos detalhes; por ser o primeiro exemplar do autor que tive acesso, percebi que ele, de fato, sabe o que escreve, conduzindo seus leitores aos contrastes emocionais a fim de que conheçam um Rio de Janeiro há muito banhado pelas águas da Guanabara.

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Título: Nas águas desta baía há muito tempo: Contos da Guanabara
Autor: Nei Lopes | Editora: Record
Publicação: 2017
Páginas: 272
Sobre: Em uma viagem por ruas, praças, morros, mares, rios, praias, mangues e ilhas de um Rio de Janeiro secreto e cheio de mistérios, Nei Lopes traz em seus contos os ecos de uma cidade quase selvagem, de lugares encantados e palavras em desuso, como se para salvá-los do esquecimento. 

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Sobre Pena Pensante

Filipe Penasso: Editor e resenhista do Pena Pensante, graduado em relações internacionais e autor do livro de poesias Entre Asas e Raízes.
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