Degas, Renoir e o Relógio de Orfeu, de Simon Goodman


Se existe algo que desperta o interesse dos mais diversos leitores à história, é, sem dúvidas, uma caça ao tesouro enlaçada de todas as aventuras e percalços inerentes a ela. E estamos acostumados a ver tais jornadas nos exemplares fictícios, fruto da criatividade de seus autores; o que não deixa de ser emocionante. Mas quando esses acontecimentos não passam pelo imaginário das mentes criadoras, encontrando-se na tênue linha da realidade, a atratividade é muito maior. Isso porque percebemos que o conteúdo presente nas linhas do exemplar, de fato, ocorreram sem precisar ser inventados, mas apenas relatados. E sobre estes mesmos relatos, quando expostos em períodos marcantes da história, completam a primorosa obra verídica de caráter artístico requintado. De tal modo que com essas palavras posso salientar a minha experiência da caça ao tesouro com o livro Degas, Renoir e o Relógio de Orfeu, escrito por Simon Goodman.


A obra apresenta um aspecto há muito esmiuçado por escritores de diversos gêneros, tanto no âmbito fictício quanto no histórico: os atos hediondos dos nazistas no período da Segunda Guerra Mundial. Mas isso não faz com que Simon Goodman se perca na mesmice temática, já que a originalidade está presente em sua narrativa e no contexto de seu exemplar, uma vez que a proposta está desenvolvida no período pós-guerra.


Assim, compreende-se o livro como uma narrativa pessoal sobre a família Gutmann, uma das mais ricas da Alemanha por carregar consigo uma longa dinastia bancária. Eugen Gutmann era um assíduo colecionador de obras de arte valiosas, passando esse interesse para as demais gerações de sua família. Com o tempo, conquistaram em sua coleção criações de Degas, Renoir, Botticelli, Guardi, entre muitos outros nomes e peças famosas como um relógio de Orfeu do século XIX. Acontece que a família era de tradição judaica e durante a década de 1940, o terror entrara em sua casa. O regime nazista destruiu qualquer perspectiva ou expectativa de um futuro pacífico entre os Gutmanns, dizimando sua imensa riqueza, a posição social e levando muitos membros a campos de concentração e extermínio. E diante de todos esses problemas imensuráveis, as obras de arte se perderam...


Muitos anos depois, o bisneto de Eugen Gutmann viu a possibilidade de ir atrás dessas obras para então, como consequência desse desejo de enfrentar o passado e refazer a história de sua família, ter inspiração para escrever um livro sobre essa busca incansável. Seu pai, Bernard Goodman, que mudara o sobrenome por segurança, havia iniciado as buscas, mas não obtivera sucesso, falecendo na década de 1980 em meio à sua reclusão pessoal mergulhado no silêncio melancólico que o cercava. E isso fez com que a responsabilidade da tarefa passasse para seus filhos Nick e Simon.


Do processo, então, Simon pôde transformar essa vivência em palavras para a elaboração de seu livro extremamente bem-escrito e organizado para garantir uma profunda imersão dos leitores na história turbulenta da família Gutmann. Muito além de uma busca por bens materiais, a narrativa reflete uma comunhão familiar ligada à emoção e ao sentimento, traçados dentro de um itinerário de reconstrução da honra perdida de forma brutal e sangrenta. Por isso o livro é dividido em três partes, caracterizadas por fundação, devastação e restauração, além de conter uma vasta seção de fotos do respectivo acervo. Nos apêndices encontram-se a árvore genealógica da família junto à lista de obras já recuperadas. Durante todo o livro é possível ver o empenho incansável de Simon e o amor com que exerce tal procura a fim de recompor suas raízes há muito arrancadas. Em síntese, firmo que sua obra é uma caça aos valores e historicidade da família Gutmann ilustrada pelo acervo artístico perdido, que impulsiona os leitores a manterem-se em suas buscas pessoais com o mesma dedicação que o autor retrata por entre as linhas de seu exemplar. 

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Título: Degas, Renoir e o Relógio de Orfeu
Autor: Simon Goodman | Editora: José Olympio
Publicação: 2017 | Páginas: 378
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Sobre: Degas, Renoir e o relógio de Orfeu, de Simon Goodman, é a história real de sua busca pela coleção de arte que os nazistas roubaram de sua família. Muito além dos horrores do Holocausto e dos acontecimentos por trás de duas décadas de caça a uma herança assolada, este livro é também uma história de devoção as suas raízes e de como a arte pode ser um símbolo de esperança.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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