Diário do Conde d'Eu, organizado por Rodrigo Goyena Soares


Diários sempre possuem uma conotação secreta dentro de seu contexto elaborável. São pensamentos, observações, experiências e reflexões enlaçadas nas considerações momentâneas em que foram escritas. Pois sabe-se que momentos são passageiros e como forma de perpetuar esse lapso de memória, surgem os diários dos mais íntimos instantes que marcam a estrada da vida assim como a tinta na ponta de uma pena marca o papel. Justo é o sentimento que se tem ao ver a obra solitária, cuja maestria das linhas permanecem obscura aos olhos de quem escreve; algo tão profundo e pessoal que só o tempo traz à luz para que outros olhos também possam desfilar sobre seus escusos parágrafos. 


Sendo assim, o autor Rodrigo Goyena Soares, idealizou a organização e tradução de confissões presentes no diário de um personagem importante do século XIX em um momento que também carrega sua carga notável para a formação histórica de alguns países da América do Sul. O personagem em questão é Conde d'Eu, atuando como comandante chefe das tropas brasileiras em operação na República do Paraguai na época da Guerra da Tríplice Aliança, onde Brasil, Argentina e Uruguai se uniram contra o ditador paraguaio Francisco Solano López que havia invadido o estado do Mato Grosso. De tal modo, os leitores apaixonados pela história de um jeito que não se encontra em salas de aula, conseguem nesse livro uma experiência única; algo como um mergulho na mente de um comandante que avança para aquela que foi considerada a batalha mais sangrenta entre o período final das guerras napoleônicas e o início da Primeira Guerra Mundial. Podemos perceber os sentimentos presentes nas entrelinhas e a variação de humor ocorrida com o passar do tempo: dois extremos que oscilam entre o lacônico e o prolixo; detalhado e superficial. Textos extensos, frases curtas e dias em silêncio; além dos fatos referentes ao conflito, existe características como a descrição do clima, e outros fatores, tais como refeições, banhos e idas à missa, destacando a sua fé que referencia inúmeras vezes Frei Fidélis D'Ávila.


Em síntese, a organização do exemplar e sua tradução para o português é fruto de uma pesquisa minuciosa e detalhada, resultado de um longo estudo realizado por Rodrigo Goyena Soares que domina o assunto por sua bagagem acadêmica acerca da temática histórica brasileira e da vida do Conde d'Eu, príncipe de Orleans e Bragança e marido da Princesa Isabel que, para muitos, é considerado o mais brasileiro de todos os franceses. Ler seus diários não é apenas adentrar nas memórias desse personagem importante na formação do Brasil, mas experienciar detalhes há muito perdidos na severidade do tempo que se não fossem os relatos por escrito, certamente estariam apagados das lembranças. Dentro desse contexto, cabe ressaltar a importância de livros como este, pois, muito mais do que desenvolver o conhecimento histórico e acadêmico de seus leitores, garante uma verdadeira viagem no tempo que não transborda a barreira da realidade, mas surpreende com aquilo que realmente aconteceu.


Por fim, a edição elaborada pela editora Paz & Terra contribui muito para uma leitura confortável do diário que pode causar estranhamento, já que o mesmo é classificado como histórico. Contudo, seja pela organização, diagramação e até mesmo pela arte, sua leitura não se limita aos historiadores e estudantes, podendo ser lido por qualquer um que se sinta atraído por características que, de certo modo, influenciaram a formação de nosso país. Logo no início, somos apresentados às razões que levaram Conde d'Eu à Guerra do Paraguai para em seguida começar os seus relatos pelos anos sucessivos. O exemplar ainda conta com um vasto apêndice de notas aprofundadas no tema, uma cronologia simplificada da guerra e diversas ilustrações e fotografias da época catalogadas com suas respectivas descrições. Sinterizando minha experiência em poucas palavras: trata-se de memórias de um passado longínquo que se eternizaram nas linhas escritas sobre a terra regada de sangue; mergulho no íntimo de uma transição sentimental refletindo uma carga empática enlaçada por detalhes que fazem a diferença. Em outras palavras: diário escrito sem perspectiva para ser lido com expectativa.

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Título: Diário do Conde d'Eu
Autor: Rodrigo Goyena Soares
Editora: Paz & Terra
Publicação: 2017 | Páginas: 336
Sobre: Pela primeira vez o leitor tem acesso integral ao Diário do Conde d’Eu. Escrito em francês entre março de 1869 e abril de 1870 – a dois dias da partida do Conde para a Guerra do Paraguai até seu retorno, ao fim da operação –, o diário foi transcrito, traduzido e anotado pelo historiador Rodrigo Goyena Soares.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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