A Verdade Sobre a Tragédia dos Romanov, de Marc Ferro


Livros de mistérios possuem uma força singular para prender os leitores ávidos a descobrirem seus segredos por horas de leitura. Algo inexplicável perante ao desejo de emancipar o fim junto à agradável sensação de dizer: "eu já sabia". Entretanto, obras com parágrafos construídos em segredos fantasiosos são, na maioria das vezes, belas criações de autores consagrados à escrita de enigmas; fato que limita o itinerário do papel à realidade. Desse modo, aquele com a chance de escrever sobre o passado obscuro e duvidoso, perfurado de questões fundamentais para haver a presença da verdade, domina um campo da escrita pouco explorado por escritores, que se resume em desconstruir a história contada nos livros e apresentar fatos que enlaçam o mistério dentro da realidade. Se enigmas criados com o intuito de cativar leitores já é algo prazeroso de se ler, imagine os mistérios que, de fato, aconteceram, mas se perderam na noite do tempo durante quase um século? É neste ponto que o livro do especialista em história europeia Marc Ferro toca: trazer à luz a verdade já esquecida e desconstruir mitos criados e perpetuados com o longo passar dos anos. 


O assunto presente na obra começa com a Revolução Russa em 1917 e a queda do último tsar, Nicolau II, dando início a novas políticas econômicas que mais tarde vieram a se tornar a União das Republicas Socialistas, ou União Soviética. A história nos conta que em 1918 toda a família real havia sido assassinada durante a tomada do poder pelos bolcheviques. Dentre as vítimas do massacre por fuzilamento ocorrido em Ecaterimburgo, pode-se citar o tsar e sua esposa junto aos seus cinco filhos: Olga; Tatiana; Maria; Alexei (o tsarévitche herdeiro do trono) e Anastácia (personagem protagonista da animação dos anos de 1990). No entanto, após este acontecimento, várias teorias começaram a surgir: uns diziam que somente Nicolau Romanov fora assassinado naquela noite e o restante da família real havia conseguido fugir; outros afirmavam que a família havia sido enclausurada para sempre ao passo em que os relatos do comissário de gerra Trotski contradiziam todos os boatos, garantindo a morte de todos os integrantes. O fato era que as informações não batiam umas com as outras; rumores sobre o trem que deixara a cidade três dias após o massacre, aguçava a curiosidade sobre a fuga da família real, e, dentro desse contexto, o chefe do Estado-Maior do Exército Branco, Dieterichs, dirigente da investigação sobre o assassinato dos Romanov, pronunciou-se afirmando que todos haviam sido fuzilados. O assunto parecia ter chegado ao fim nesse momento se não fosse o comandante Joseph Lasies, membro da missão militar francesa na Sibéria e correspondente do jornal Le Martin, apontar dúvidas e aspectos que traziam em cheque a veracidade sobre o fim da família real russa. E seguindo essa conjectura, nunca houve um consenso entre os dois extremos.


Após analisar todas essas informações, é possível perceber a importância da obra de Marc Ferro para os amantes da história e atraídos pelos mistérios que assombram suas nuances. O autor jamais acreditou na versão oficial a respeito do assassinado e isso serviu de folego para sua pesquisa detalhada a fim de provar que eles teriam sobrevivido ao fuzilamento. Para isso, Ferro utilizou de inúmeros meios para construir a sua obra, tendo como base documentos oficiais, relatos de juízes e testemunhas subitamente executados, testes de DNA e o rigor de grandes  historiadores. Ao fim, chegou-se a conclusão de que a esposa de Nicolau e suas filhas haviam, de fato, escapado graças a um acordo entre os bolcheviques e alemães, com a condição de permanecerem caladas a respeito de suas origens. Apenas o destino do tsarévitche herdeiro do trono, Alexei, permaneceria obscuro e lançado a suposições devido a falta de fontes. 


O exemplar apresenta uma série de fotografias das filhas do tsar após a data de sua execução, junto a trechos de cartas e a menção do diário escrito por Olga, intitulado de "Io Vivo" (Estou Viva). Além disso, há o mapa referente ao deslocamento dos Romanov, no verão de 1918; a cronologia riquíssima que simplifica a obra  imensamente; a genealogia da família e os anexos documentais incontestáveis. Sem contar que a nova edição da Editora Record contribui para uma leitura agradável tanto nos termos da diagramação quanto da arte. Sinterizando, trata-se de um livro que lança luz a um dos maiores mistérios do século XX não ficando preso nos mitos que rodeiam qualquer conspiração, mas indo ao encontro de fatos concretos que comprovam o não ocorrido. Escrito em linguagem simples, permite a não elitização do tema aos acadêmicos, abrangendo suas linhas a todos os públicos que expressam interesse sobre mistérios históricos quase perdidos com a morosidade do tempo.

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Título: A Verdade Sobre a Tragédia dos Romanov
Autor: Marc Ferro | Editora: Record
Publicação: 2017 | Páginas: 168
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Sobre: Na noite de 16 para 17 de julho de 1918, na região dos Urais, o tsar Nicolau II, sua esposa e seus filhos – Olga, Tatiana, Maria, Anastásia e Alexei, o tsarévitche – foram executados pelos bolcheviques. Marc Ferro, porém, jamais acreditou nessa versão oficial. Com base em documentos, e com o rigor dos grandes historiadores, ele questiona o assassinato dos Romanov.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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