As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis


Clássico da literatura portuguesa, editado e publicado como livro em 1867 por Júlio Dinis, tido como um verdadeiro sucesso da época justamente por direcionar-se à classe popular e não restringir-se à elite acadêmica. Nesse período da segunda metade do século XIX, Portugal vivia anos de ouro para sua literatura, com nomes memoráveis tais como Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz. Mesmo tendo esse rico acervo à disposição, as atenções dos ávidos leitores voltavam-se a uma obra em especial de um autor que se lançava no meio literário fazendo uso de um pseudônimo. O exemplar foi chamado por Herculano de primeiro romance português do século, enquanto Camilo vislumbrava o nascimento de uma nova geração. De fato, Joaquim Guilherme Gomes Coelho, mais conhecido como Júlio Dinis, entrou para a história como escritor, não usando a arte como uma arma, mas como algo sutil e sensível, condizente com a pena tida como o mais clássico instrumento de trabalho de um escritor. 


O cenário para o amor entre as irmãs Clara e Guida, e os irmãos Pedro e Daniel é de uma aldeia portuguesa do século XIX. Margarida, a irmã mais velha, sofria nas mãos de sua madrasta que a obrigava ir ao campo sempre com o rebanho. Nessa rotina incansável, a moça acabou conhecendo o jovem Daniel com quem se apaixonou. Todavia, nesse mesmo povoado, onde a praxe era regada por ingênuo moralismo e boatos inconsistentes, a trama se consolida e desenrola seus impasses a partir do encontro do casal e suas consequências.


Pedro e Daniel, filhos de José das Dornas, representam extremos de personalidades diversas. Enquanto Pedro seguia os passos do pai, tornando-se lavrador, Daniel planejava seguir a vocação sacerdotal. Contudo, depois que o jovem conheceu Margarida, a ideia do celibato já não o agradava mais. Nesse sentido, o reitor acaba descobrindo o inocente namoro entre os dois e comenta com José das Dornas, que acaba tendo como atitude mandar Daniel ao Porto a fim de que o rapaz estudasse medicina.
Somente dez anos depois Daniel volta à aldeia como médico homeopata e encontra Margarida desempenhando o ofício de professora das crianças da região que ainda mantinha seu amor pelo rapaz que há muito deixara a vila. No entanto, depois de tudo que ele viveu na cidade grande, sua mentalidade e atenção desviou-se para outros planos e anseios, esquecendo-se, em parte, da jovem que permanecera a sua espera.


Durante esse período, Pedro se torna noivo de Clara, e o jovem médico, recém-chegado, desperta um interesse singular pela cunhada; fato que põe em risco a estrutura familiar. O moça que, ao perceber a gravidade da situação, hesita em estimular a perseguição de Daniel, acaba combinando um encontro a fim de dar um basta nessa situação constrangedora. Mas, nesse ponto da narrativa, Pedro os descobre e Margarida, com o intuito de salvar o casamento da irmã, toma o seu lugar. Obviamente esse acontecimento se espalha pela aldeia, comprometendo a reputação de Guida, caracterizando-se como um verdadeiro escândalo.


Após o ocorrido, Daniel, sensibilizado com o caráter da moça, recorda-se das lembranças quase enterradas com o tempo e do amor que ambos cultivaram na infância. Sendo assim, o rapaz se apaixona novamente e tenta reconquistá-la de vez. E nesse aspecto a narrativa segue seu panorama de emoções e sentimento entre os irmãos. A nova edição do clássico português contribui para uma leitura mais confortável, seja pelo trabalho técnico ou artístico que refere-se aos famosos azulejos portugueses. Um livro simples mas revolucionário para a época, justamente por oscilar entre personalidades fraternais e sentimentos de ódio e amor sem perder o romantismo europeu nem tampouco chocar os leitores com os fatos retratados. Em síntese, dá para seguir a mesma linha de raciocínio que Eça de Queiroz teve a respeito do autor: Julio Dinis viveu de leve; escreveu de leve e morreu de leve.

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Título: As Pupilas do Senhor Reitor
Autor: Júlio Dinis | Editora: Record
Publicação: 2017 | Páginas: 368
Sobre: Júlio Dinis, importante autor português, nos traz uma obra escrita de forma clara e agradável, semelhante aos romances de folhetim. Temos uma trama que, além de nos servir de base para compreender certo passado, dialoga com o presente de maneira substancial. Leitura de grande importância para a literatura portuguesa, necessária para os que a estudam e cativante para os que a querem conhecer melhor.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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