Travessia, de Leticia Wierzchowski


Enfim, o último exemplar da trilogia A Casa das Sete Mulheres, que durou 16 anos para ser concluída. Com a maestria de Leticia Wierzchowski em conduzir romances históricos, Travessia fecha a saga com chave de ouro, formando uma das obras que mais enriquece o acervo nacional. Sua habilidade na escrita é refletida em emoções e sentimentos enquanto vamos virando as páginas de sua obra.
Se no primeiro volume o enredo era focado na Estância da Barra, sob o olhar das sete mulheres  que passaram anos enclausuradas, e no segundo os cenário se abrangem e abrem espaço para novas premissas além da Guerra dos Farrapos, adentrando também à Guerra do Paraguai, com grande número dos mesmos personagens, o terceiro, por sua vez, focaliza o romance entre Anita e Giuseppe Garibaldi. Estes que são conectados pelo apreço imensurável à liberdade transmitida em suas nuance, fonte da sensação de autonomia e independência aos leitores ávidos por aventura e historicidade.


O contraste entre as guerras históricas, extremamente bem descritas e detalhadas que mostram todo  estudo feito em cima do tema pela autora, e as batalhas do cotidiano desse casal que se encontrou em meio às tormentas é um fato importante a ser mencionado, pois se antes a visão das coisas era dada sob a perspectiva da personagem Manuela, agora, Wierzchowski  concede os detalhes de um novo ângulo: o de Giuseppe.
Trata-se de um romance de sentenças ricas e palavras bem utilizadas, algo feito como um jogo que brinca com a capacidade de percepção de quem está olhando de fora, criando um ensejo para o florescimento da imaginação de cada um. Isso porque, seja pelo fato do rico conjunto de conhecimentos referentes ao passado de nossa nação e sua evolução — mais especificamente no sul do país — ou a construção singular de personagens já existente com as particularidades da autora, Travessia nos garante esse itinerário que navega entre dois extremos da concepção: de um lado temos dois personagens históricos, revolucionários que entraram para os livros acadêmicos, enquanto do outro temos um casal com suas características similares, seus anseios e temores relatados de forma espiritual que concebe uma visão única sobre seus feitos durante as guerras que presenciaram.


E interessante dizer que se não fosse sabido tratar-se de um romance histórico, o mesmo passaria como obra inteiramente ficcional, pois, conforme já mencionado, embora o livro ensine muito sobre os feitos e acontecimentos da época, o objetivo principal, ao meu ponto de vista, está centrado mais na experiência dos protagonistas enquanto pessoas vivendo sob aquelas circunstâncias. De tal maneira, os dez anos que Anita e Garibaldi viveram juntos são transformados  nesse romance de seiscentas páginas tecido ao longo dos muitos anos de trabalho para, enfim, chegar ao resultado final.


Encontros e despedidas; vida e morte. O arcabouço de experiências em Travessia, de fato, viaja entre extremos, mesmo que a obra não tenha esse título por conta disso, é uma coincidência ímpar a ser levada em conta. Personagens que ficam na memória mesmo depois que se vira a última página, momentos que são refletidos nas lembranças e cenários ilustrados pela imaginação de cada leitor são aspectos que bons romancistas conseguem despertar, e, nesse caso, a asserção dos fatos relacionados a essa história de amor aguça muito mais do que se espera de uma narrativa.


A edição da trilogia lançada pela Bertrand Brasil é primorosa tanto no conceito artístico quanto no técnico. Os desenhos de Chico Baldini nas três capas completam a elegância desses exemplares que, além de tudo, embelezam qualquer estante onde são colocadas. Para concluir, afirmo que o intuito dessa análise é de passar minha experiência literária com a obra, além das emoções que seus capítulos puseram em mim. Qualquer livro acadêmico pode contar a história resumida de Anita e Giuseppe Garibaldi, mas, para ir além, adentrando no íntimo de suas essências, é preciso ligar-se à idealização romancista, fruto de muito trabalho para proporcionar os afortunados que viram suas páginas uma travessia entre a fantasia e a realidade.

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Título: Travessia | Editora: Bertrand Brasil
Autora: Leticia Wierzchowski
Publicação: 2017 | Páginas: 546
Sobre: Giuseppe e Anita Garibaldi viveram e lutaram em três países diferentes: no sul do Brasil, à época da Revolução Farroupilha, em Montevidéu, no cerco de Rosas, e na unificação da Itália. Apaixonados um pelo outro, Giuseppe e Anita foram verdadeiros amantes da liberdade. Tudo está aqui neste livro: as grandes batalhas históricas e as pequenas batalhas do dia a dia.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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