Um Farol no Pampa, de Leticia Wierzchowski


Mais uma vez tive a oportunidade de me aventurar em um magnífico romance histórico nacional cuja premissa nos faz viajar para um passado de raízes fortificadas em batalhas e emoções, permitindo-nos imaginar todos os eventos da época como se fossem vividos por nós, que apenas desempenhamos o papel de leitores. Mas uma das características de um bom exemplar é, realmente, esta: conceder àqueles que viram suas páginas, de forma despretensiosa, a oportunidade de viver aquilo que seria impossível se não fossem horas de dedicação de um autor a fim de transformar eventos verídicos, com sinceridade e autenticidade, nos mais ilustres romances, temperando os acontecimentos com suas artimanhas para transformar o conceito acadêmico em artístico.


E destacando célebres critérios da artisticidade na escrita que Leticia Wierzchowski dá continuidade a trama de A Casa das Sete Mulheres com o segundo livro da trilogia: Um Farol no Pampa. A obra que, de imediato, nos oferece todo estilo poético presente no acervo da autora gaúcha, continua os relatos da família de Bento Gonçalves, que conquistou os leitores ávidos por historicidade dentro da ficção. Mesmo essa parte da trama não sendo adaptada à minissérie, temos a oportunidade de nos colocar presentes na narrativa e saber que rumo muitos personagens presentes no primeiro exemplar tomaram ao final da Guerra dos Farrapos, pois, conforme havia frisado na resenha do livro anterior, o brilhantismo e primazia desse romance está na escrita de Wierzchowski e não em sua adaptação.


A obra continua centrando-se na força das mulheres que apesar de não viverem mais na clausura da Estância da Barra, precisam enfrentar desafios ainda maiores, como o de lidar com a morte de familiares de maneira firme, já que os revolucionários perderam a guerra. Também há a introdução de Matias, um dos personagens principais e também integrante da família de Bento Gonçalves, que nasce num contexto problemático familiar descrito pela autora a fim de deixar os leitores conectados na realidade do garoto, que possui uma vida traçada aos passos daqueles que deram o sangue pelos pampas gaúchos.
O acontecimento histórico central da obra é a Guerra do Paraguai que ocorreu anos após a revolução dos farrapos. A família que ainda vive as tristezas da derrota e o luto pela morte de vários integrantes, precisa saber enfrentar os novos problemas inerentes ao tempo, já que a narrativa engloba um período de seis décadas, indo desde a morte de Bento Gonçalves até meados do início do século XX. Acompanhamos o amadurecimento de Matias, que se vê numa situação temerosa frente aos contratempos das batalhas e outros fatores da época que vão se desenrolando. Contudo, muito mais importante do que a história já relata em seus livros, está a emoção e os sentimentos dos personagens; isso porque trata-se de um romance, e, como tal, a introspecção sentimental toma um papel mais destacado no decorrer dos parágrafos.


Outro fator importante da obra é a oportunidade de conhecer e entender como era a vida das pessoas naquela região no século XIX. Um bom romance precisa ter uma bagagem cultural verídica, fruto de uma minuciosa pesquisa, visando passar as informações de forma simplificada; e como Leticia Wierzchowski domina o tema proposto, fica fácil de aprender e se emocionar ao mesmo tempo. As particularidades culturais e antropológicas se equilibram com as características singulares de seus personagens bem construídos. E para firmar esta frase, cito o exemplo de Manuela, a eterna esposa de Giusepe Garibaldi, com quem nunca se casou. A moça vive uma espera interminável fechada em seu quarto, a ponto de experimentar o vestido de noiva, feito por suas próprias mãos, várias e várias vezes. Características únicas que constroem essa personagem, também estão presentes em outros, cada qual com sua especialidade.


Em síntese, afirmo ser uma magnífica obra que dá continuidade a uma história excepcional cheia de reviravoltas e surpresas. Contrastes entre alegria e tristeza na escrita poética da autora. Um livro não somente para ler, mas para perdurar; por isso tentei passar com clareza aquilo que vivi na obra, e, resumindo em poucas palavras, pude adentrar num emaranhado de capítulos bem escritos, formando uma copa de sabedoria, cujo tronco é cravado por fortes raízes no solo dos pampas gaúchos.

ANEXO: Clique aqui para acessar a resenha de A Casa das Sete Mulheres.

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Título: Um Farol no Pampa 
Autora: Leticia Wierzchowski
Editora: Bertrand Brasil | Publicação: 2017
Páginas: 462 | Esse livro no Skoob
Sobre: A história de Matias se mescla com a vida das personagens femininas de "A Casa das Sete Mulheres" e, mais uma vez, Manuela dá a sua voz para nos contar o que foi feito do Rio Grande e da sua gente depois que a Revolução Farroupilha teve seu malfadado final. E traz de volta para o leitor a companhia de personagens queridas como D. Antônia, D. Ana, Caetana, Mariana e Perpétua.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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