Homo Perturbatus, de Luiz Carlos Freitas


Sabemos que somos influenciados por incontáveis fatores sociais no decorrer de nosso amadurecimento, e esse processo pode ter tanto um caráter positivo quanto negativo. Explicando melhor, é como se a personalidade fosse moldada com essas ações que presenciamos, sendo as mesmas responsáveis por desenvolver preferências, opiniões e conceitos a respeito do mundo em sua totalidade. Um exemplo real a ser citado, é o caso da tribo isolada na Ilha Sentinela do Norte, no Oceano Índico, na qual os habitantes permanecem sem qualquer influência do mundo moderno ou da sociedade contemporânea. De tal forma que criaram seu próprio sistema e vivem como se ele fosse o correto e único. Mas este exemplo dos sentineleses serve apenas de ilustração para compreender a temática da obra Homo Pertubatus, escrita por Luiz Carlos Freitas.


Não é nenhum segredo os problemas que a sociedade moderna enfrenta. Assim como o caso do indivíduo solitário mesmo estando cercado de pessoas, ou o célebre popular que está a centenas de quilômetros de seus amigos, também há os valores que antes eram tidos como certos, mas que, de repente, passaram a ser errados. Ou seja: inversão é a palavra chave de tudo isso. Dessa maneira, o autor do livro aqui resenhado teve a brilhante ideia de explanar esse tema por meio de seu romance, fazendo com que os leitores reflitam sobre os dois lados de uma balança, caracterizada pelas boas e más influências, e as ações que representam o peso que cada lado recebe.


Com uma escrita singular e altamente detalhada, Freitas promove em seus capítulos algo que pode ser sutil e profundo, ao mesmo tempo. Simplicidade no tempo e complexidade nos detalhes. Isso porque por mais que haja uma passagem temporal significativa na narrativa, não é o ponto principal. Já os detalhes da descrição dos personagens, de suas artimanhas e ações entregam as particularidades da escrita do autor, tornando a leitura rica e agradável àqueles que já possuem tal hábito. De fato, o livro nos proporciona uma viagem com seu vasto vocabulário, usado com maestria. Pois essa ferramenta pode desencadear uma morosidade na trama, mas, quando bem colocada, a extensa gama de palavra facilita a imersão no enredo e o fascínio dos leitores que se aventuram pelas páginas do exemplar.
Agora, falando sobre a premissa desse romance que é tido como uma crítica social, temos a figura de um milionário que, em meio ao seus insights, resolveu fazer uma experiência psicológica e experimental nada condizente com os direitos humanos. Imagine o sequestro de dois irmãos gêmeos na maternidade, que, em seguida, são colocados em situações diferentes de vida e criação — um é adotado por uma família de classe média enquanto o outro permanece preso e isento de qualquer influência social, sendo moldado intelectualmente ao conhecimento da ética e à forma de colocá-la, verdadeiramente, em prática até os 18 anos, quando, finalmente, é libertado para conhecer o mundo real. 


Claro que a proposta é bem mais delicada do que a descrição sintetizada do parágrafo anterior, se levarmos em conta o vício da mãe biológica dos meninos pelas drogas, o tráfico de crianças, e outros crimes que até hoje acontecem. A questão é que o garoto que cresceu numa família normal, desenvolve os temidos problemas sociais que o livro critica, enquanto seu irmão, enclausurado, progride nas virtudes almejadas por seu observador. O desenrolar da narrativa começa após a libertação daquele cuja personalidade foi moldada.
Em síntese, esta é a base que posso dar sobre o livro: vemos dois extremos de uma mesma situação que é regada por qualidades e defeitos. De um lado, um ser humano livre de preconceitos, de ignorância e desconfiança, mas que não sabe a maneira que funciona a sociedade, e, do outro, seu irmão que cresceu como qualquer um de nós, leitores, mas que se corrompe em razão de suas próprias vontades.


Sendo uma resenha a união do resumo com a opinião do resenhista, acredito que tenha chegado ao meu objetivo. Para firmar em poucas palavras: trata-se de um excelente livro que proporciona uma introspecção àqueles dispostos a perceber o quão influenciados podemos ser nos dias atuais com todos os recursos tecnológicos imagináveis. A primazia do título, Homo Perturbatus, em relação a obra diz respeito a um termo já usado pelo biólogo francês Jean-François Bouvet, no qual refere-se a uma retroevolução, assim como Luiz Carlos Freitas nos faz refletir no exemplar. Vale a pena conhecer essa obra, fruto de uma pesquisa acadêmica minuciosa, que enriquece muito o acervo nacional e exercita a capacidade de pensar daqueles que ainda são Homo Sapiens

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Nome: Homo Perturbatus
Autor: Luiz Carlos Freitas
Editora: Selo Jovem
Publicação: 2016 | Páginas: 234
Sobre: "Homo Perturbatus é mais que uma crítica social. É uma profunda análise da condição humana e das instituições que dominam a civilização ocidental, mostrando a necessidade de revolução individual e coletiva do homem, sob pena de ele perder as prerrogativas de animal racional. Ficção, suspense, romance, ironia, filosofia e antropologia em uma obra única e original. Leitura para entender o Brasil e o mundo contemporâneo."

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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