A Última Camélia, de Sarah Jio


Como uma velha safra de vinho esquecida no sótão que ganha valor à medida em que o tempo a envolve com seu manto, o romance de mistérios e segredos obscuros e desdenhados na noite da história, desenvolve suas raízes profundas no âmbito da estima criada no leitor, que começa a resolver seus enigmas no instante em que vira a primeira página. Claro que os vinhos servem para ilustrar aquilo que fica melhor com o tempo, e no caso do exemplar de Sarah Jio, A Última Camélia, a passagem temporal é de suma importância para a consolidação do mistério junto ao seu desfecho. 


O cenário inglês é perfeito para a trama, que se passa em dois tempo e com duas protagonistas. Dois extremos conectados a uma velha mansão no interior da Inglaterra, cercada de especulações a respeito de seus acontecimentos. Além disso, algumas características similares fazem o papel de nó para o laço de particularidades presentes na vida das mesmas. Exemplos a serem citados são a origem novaiorquina e a coragem de atravessar o Atlântico para começar uma nova vida; ainda que num intervalo de tempo de sessenta anos entre uma e outra.


O enredo se embasa numa raríssima camélia supostamente localizada nos imensos jardins da mansão. O último espécime dessa flor atrai os olhares de contrabandistas que usam de diversos meios para tentar roubá-la por anos e anos; até mesmo antes da trama principal. São conhecidos como ladrões de flores. E é exatamente um desses que aborda Flora para encarregá-la dessa missão. A menina, que assume o papel de primeira protagonista, se vê tentada pela proposta, uma vez que seus pais passavam por situações financeiras difíceis àquela época de início da Segunda Guerra Mundial. De tal forma que ela adota o compromisso e embarca para a Inglaterra com o pretexto de trabalho honesto. Sessenta anos depois, Addison chega na propriedade, a qual fora comprada pelo marido, e vai descobrindo aos poucos um passado quase esquecido. Duas vidas ligadas no mesmo local que embora tenham funções diferentes, refletem experiências semelhantes em relação as suas próprias vidas. 


Como um livro de mistérios requer cautela a ser analisado, não poderia me aprofundar nos percalços e reviravoltas que tanto Flora quanto Addison enfrentam. Mas é claro que há uma gama de emoções e bagagens que envolvem essas personagens. Amores proibidos e fantasmas do passado são alguns aspectos bem trabalhados no romance de Jio, a quem podemos atribuir uma escrita singular para com as descrições de atos e feitos. Nos revestimos de empatia quando tomamos conhecimento dos receios e anseios que cada personagem transparece em suas falas, sendo esta uma característica primorosa para exemplares do gênero. Há também o papel fundamental da edição que contribui ao máximo para uma leitura confortável, sendo esmerada no quesito artístico.


Em síntese, certamente indico o exemplar pois tem muito a oferecer àqueles dispostos a lê-lo. Seja pela historicidade relevante do período abordado, ou pela simplicidade da autora que faz do livro algo leve, mas ao mesmo tempo com uma forte carga sentimental. O jardim mencionado fica em nossa imaginação mesmo após a leitura, com toda sua beleza e raridade, dando cor e imponência à premissa poética imaginada por Sarah. Em outras palavras, comparo sua escrita com uma camélia: sutil e marcante em seus contrastes. 

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Título: A Última Camélia
Autora: Sarah Jio
Editora: Novo Conceito
Publicação: 2017
Páginas: 320
Sobre: Sarah Jio é jornalista e já escreveu para muitas revistas conhecidas. Hoje é responsável por um blog de saúde e bem-estar, o Vitamin G. Sarah vive em Seattle com o marido, três filhos e Paisley, um golden retriever que rouba pés de meias.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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