A Astúcia Cria o Mundo, de Lewis Hyde


Se formos pesquisar no dicionário o significado da palavra astúcia, veremos que ela é uma característica do indivíduo que é astuto, ou seja, aquele que consegue o que deseja com sagacidade, esperteza e engenho; uma pessoa que não se deixa enganar ou ludibriar. Todavia, esse adjetivo da língua portuguesa também pode ter uma conotação negativa, sendo relacionado à pratica da maldade; alguém que engana outras pessoas para proveito próprio. Assim, nós chegamos em um impasse entre o bem e o mal, o meio termo de dois extremos que é caracterizado pelos tricksters, assunto central tratado na obra de Lewis Hyde. 


Seguindo essa interpretação, o trickster é aquele que está na fronteira das coisas; entre o vilão e o herói ou o flagelo e o benfeitor. Seu significado, segundo o Oxford Dictionary, é dado como uma características às pessoas que iludem e enganam as outras, algo como um trapaceiro. Contudo, o exemplar de Hyde nos mostra um significado bem mais profundo para esse termo, e não tão negativo quanto parece, dando-nos exemplos nos universos mitológicos politeístas onde os tricksters assumem papeis importantes para o desenvolver da trama.


Exemplos a serem citados, presentes na obra, são Hermes na Grécia, Exu na África Ocidental, Krishna na Índia, Coiote na América do Norte, entre muitos outros personagens mitológicos. Uma característica em comum de todas essas personalidades é que elas agem como senhores do intermédio, tornando-se civilizadores que se manifestam em diferentes horizontes. Na fantasia, é aquele personagem que consegue transitar entre o céu e a terra, e entre os vivos e os mortos; como um mensageiro de deuses ou um barqueiro condutor de almas para o submundo — não são nem heróis, nem vilões.


Então, o conceito padrão de um trickster, é um cruzador de fronteiras; porém, o que o autor nos mostrar no exemplar é que o mesmo também cria fronteiras, ou traz à superfície uma distinção antes oculta. De certo modo, sua escrita é principalmente caracterizada como um forma de expressão artística abordada para descobrir onde a imaginação disruptiva sobrevive no mundo moderno. E alguns artistas são citados, como Pablo Picasso, Marcel Duchamp e Allen Ginsberg, mas de uma forma abstrata comparada com os personagens antigos.


Em síntese, podemos afirmar que o exemplar, considerado uma obra-prima do tema proposto, é uma fonte de sabedoria e reflexão para todos que o leem. Completo e dinâmico, com uma fluência impecável sobre as questões filosóficas e históricas, A Astúcia Cria o Mundo apresenta-nos uma erudição fantástica em meio as suas páginas, fazendo vir à mente a pergunta: "Como um personagem secundário, muitas vezes, torna-se protagonista das circunstâncias?", "Seria essa a trapaça dos tricksters?"  
A obra entrou para minha lista de livros preferidos, o que é raro nos dias atuais. Assim como Lewis Hyde entrou na minha lista de célebres autores, os quais eu preciso ler mais livros. Já esperava algo que clareasse minha mente nesse universo mitológico e artístico, e fui extremamente surpreendido com a qualidade acadêmica e a simplicidade da escrita. Interpretada como uma moderna crítica cultural, de fato, merece o honroso rótulo de obra-prima.

ALGUNS TRICKSTERS NO PENA PENSANTE:
► A Lenda de Pã

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Título: A Astúcia Cria o Mundo | Autor: Lewis Hyde
Editora: Civilização Brasileira | Páginas: 546
Publicação: 2017 | Esse livro no Skoob
Sobre: Neste livro fascinante, Lewis Hyde explora os velhos mitos que afirmam ter sido o trickster – a figura mitológica que oscila entre o herói e o galhofeiro – quem fez deste mundo o que ele é. Hyde argumenta que nosso mundo – complexo, ambíguo, belo e sujo – foi uma criação ainda não concluída do trickster. Notável em sua erudição, fluente e dinâmico em seu estilo, A astúcia cria o mundo figura entre as grandes obras da moderna crítica cultural.
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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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