A Corte do Leão


Sua Majestade, o leão, manifestou certa vez o desejo de conhecer todos os povos, dos quais, por graça divina, era amo e senhor. Para reunir os súditos num local possível, enviou para todos os cantos do globo um mensageiro que levava consigo a convocação em forma de carta, autenticada com o selo real, a fim de que os vassalos pertencentes a todas as categorias sociais tomassem conhecimento do grandioso evento.
Na correspondência estava escrito que num período de trinta dias haveria uma festança ininterrupta, começando por um banquete onde nobres e plebeus se reunissem. Após a comilança, os comensais teriam por diversão as graças do gentil senhor macaco, que amavelmente se oferecera para distraí-los. Com estas demonstrações de riqueza, o rei desejava mostrar ao súditos todo o seu poderio. Quando chegaram à corte do reino, os vassalos, numa concessão real especial, foram recepcionados na entrada do palácio. E que palácio! 
Os visitantes, todavia, ficaram assombrados e enojados com o forte odor, reminiscência de matanças passadas. O urso, não suportando o mal cheiro, não hesitou em tapar o nariz, coisa que nunca havia acontecido antes na presença da realeza. O rei notou aquele movimento e irritado mandou o impertinente súdito para a morte. O macaco, num gesto peculiar aos aduladores, teceu rasgados elogios à cólera e às poderosas garras do monarca, estendendo-os ao antro real, e até achando que o cheiro que tanto importunara o urso era nada mais que um suave aroma, ao qual não se comparavam nem flores nem âmbar, que postos em paralelo mais pareciam perfume de alho e cebola.
Não sabia o néscio que com suas bajulações estava cavando, também, a própria desgraça. O soberano mandou que o castigassem por falar demais em momentos inadequados. Aquele rei devia ser pelo menos parente de Calígula ou outro imperador qualquer da Roma antiga, que primavam pela perversidade, pois o leão nada lhe ficava devendo. Era digno dos ancestrais.
O monarca, desejando ouvir o que o súditos estavam pensando de sua demonstração de ferocidade, aproximou-se da raposa e disse-lhe:
— E tu, raposa, sentes algum mau cheiro? Achas que meu palácio ofende ao delicado olfato de quem o adentra? Diga-me com toda franqueza, que saberei acatar qualquer que seja tua opinião.
O que faria a raposa? O urso já fora liquidado por achar que o cheiro era na verdade desagradável. Por outro lado o macaco não tivera melhor sorte ao expressar-se favoravelmente à execução do urso, acrescentando que o cheiro era agradável. Se qualquer opinião era premiada com a morte...
— Sinto imensamente, majestade — grunhiu o astuto animal —, mas me encontro muito resfriada e não estou em condições de sentir cheiro algum. 
Dessa forma, escapou à morte.
Pois dessa velha fábula podemos tirar a lição de que jamais devemos demonstrar pesada crítica ou adulação astuta à corte. Muitas vezes, o jogo do ouvir e do calar é a melhor opção para lograrmos êxito. 

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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