A Morte de Pã



Pã era conhecido  como o deus dos pastores, caçadores e todas as coisas selvagens que na terra habitavam. Famosa era sua estranheza; tinha dois pequenos chifres de bode e pernas peludas do mesmo animal com delicados cascos. Era fácil de encontrá-lo em lugares solitários e primitivos, onde costumava tocar seu conjunto de flautas de junco. O ser das florestas emitia suaves melodias de seu instrumento devido à ninfa Siringe, por quem caíra de amores. Esta, por sua vez, fugiu de Pã com toda indolência, sempre rogando aos deuses que a transformassem em junco a fim de não ser encontrada. De nada adiantara! Sendo adorado pelos egípcios e pelos gregos, a criatura era capaz de demonstrar sua presença através de sensações de terrível medo, fazendo com que fugissem de pânico — talvez por sua aparência um tanto quanto assustadora. E um fato interessante é que, mesmo preferindo lugares silenciosos, era notado em meio às pessoas. 
É sabido que o mesmo falecera misteriosamente, sem pistas do ocorrido. O que realmente se conta é que durante o período do imperador romano Tibério, entre 14 e 37 d.C., uma embarcação indo em direção à Itália, passando pela ilha grega de Paxor, escutou uma voz divina dizendo: "O grande Pã está morto!". Os marinheiros repetiram o grito quando avistaram terra firme, comunicando a todos com ouvidos para escutar, seguido pelo pranto erguido na terra vazia.


O destino de Pã era amar sem nunca conseguir unir-se à criatura amada. Um dos últimos relados de sua vida foi que ele passara a fazer músicas nas montanhas, onde ouvia no fundo do vale uma terna voz que parecia repetir-lhe os acordes. Era a voz da ninfa Eco, filha do Ar e da Terra, cuja história já foi contada no blog — para acessar, clique aqui. Embora a seguisse e ela respondesse, jamais conseguia alcançá-la. Assim Pã residia em grutas e vagava pelos vales e pelas montanhas, caçando ou dançando com as ninfas, trazendo sempre consigo a flauta de junco. Manuel Bandeira, em 1919, escreveu um lindo poema sobre a morte de Pã, que você pode conferir a seguir:
Quando aquele que o beijo infiel traíra no Horto,
Desfaleceu na cruz, das montanhas ao mar
Gemeu, com grande pranto e feio soluçar,
Uma voz que dizia: — “O Grande Pã é morto!...

Aquele deleitoso, almo viver absorto
No amor da natureza augusta e familiar,
O ledo rito antigo, outrem veio mudar
Em doutrina de amargo e rudo desconforto.

Faunos, morrei! Morrei, Dríades e Napeias!
Oréades gentis que a flauta do Egipã
Congraçava na relva em rondas e coreias,

Morrei! Apague o vento os tenuíssimos laivos
Dos ágeis pés sutis... Bosques, desencantai-vos...
Fontes do ermo, chorai que é morto o grande Pã!..."
Tífon, inimigo dos deuses, certa vez aparecera para matar todos aqueles que estivessem à sua frente. Pã, assustado, mergulhou-se num rio de ponta-cabeça, deixando apenas as pernas e os cascos para fora d'água, O inimigo pensando se tratar de um bode, passou direto sem lhe fazer mal. Zeus considerou tal atitude uma estratégia digna das mais sinceras homenagens, assim, transformou Pã na constelação de Capricórnio, que brilha forte nas longas noites da história.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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