O Rato Que Se Retirou Do Mundo


É clássica a antiga fábula que nos conta sobre certo rato, que desenganado das coisas deste mundo, resolveu dele retirar-se, tornando-se ermitão, passando a viver no interior de um queijo do reino. Ali dentro, o eremita encontrara, enfim, o sossego e a paz tão desejados, graças aos seus esforços feitos com unhas e dentes para cavar o queijo e fazer de seu interior um local agradável onde pudesse viver a seu gosto. Tinha tudo de que necessitava, pois sua habitação era como um armazém bem provido, de forma que em poucos dias já se encontrava bem roliço com os pelos macios e sedosos, igual a um veludo.
Já se passavam muitos dias desde que se isolara o animalzinho, quando alguns mensageiros de seu povo acorreram à sua nova residência em busca de socorro. O clã dos felinos bloqueara Ratópolis. Os próceres da cidade espalharam-se por terras estranhas, procurando auxílio para a tortuosa batalha contra os gatos. Tal missão se tornava mais delicada pelo fato das verbas do estado onde os ratos viviam encontrar-se em extrema penúria, o que impossibilitava contratar os serviços de algum exército mercenário. Mas, mesmo assim, os embaixadores que se dirigiram para a batalha na fervorosa esperança de que, quando precisassem, teriam a ajuda necessária, sabiam que estavam despertando a fúria dos belicosos habitantes do país dos gatos.
— Portanto — diziam os mensageiros ao ermitão —, pouco pedimos. Se pudermos contar com vosso auxílio por três ou quatro dias, estaremos salvos, pois aí já deverão ter chegado reforços.
— Meus compatriotas — argumentou o solitário habitante do queijo —, não vejo como vos possa ser útil, embora grande seja meu desejo de auxiliá-los. Mas que poderia fazer um pobre cenobita, como eu, embora carregado de boas intenções? O mais que posso prometer é rogar ao céu a ajuda de que necessitam. E o farei, porque creio firmemente no poder divino.
Dizendo estas pias palavras, o novo santo cerrou a porta, dando por encerrada a entrevista.
Tal conto nos faz refletir sobre um curioso ponto: com que se parecia o modo de agir desse rato tão pouco caridoso? Muitos pensariam em um monge, mas estão enganados. O autor, Jean La Fontaine, ao escrever a fábula há mais de trezentos anos, certamente associou a atitude do rato à de um líder de estado cujo comportamento seria o mesmo.
Podemos pensar que não é tão diferente dos dias atuais, afinal, existem aqueles que utilizam da religião como forma de driblar os compromissos com a sociedade. Mesmo depois de vários séculos, os problemas continuam os mesmos: autoridades que vestem o manto da hipocrisia e somem como ermitões, satisfazendo seus próprios interesses e negando socorro aos compatriotas.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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5 comentários:

  1. Adorei a fábula, não conhecia! Mesmo sendo escrita há muito tempo, ainda passa uma mensagem especial que aborda temas recentes! Parabéns pela publicação, bjs <3!

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  2. Olá Filipe!
    Descobri seu blog no Blogs Brasil e estou gostando muito...não conhecia essa fábula mas ela é atemporal!
    Parabéns pelo seu trabalho e sucesso!

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    1. Oi, Sandra! Obrigado pelo seu comentário. Fico extremamente feliz que tenha gostado. Grande abraço. =)

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