A Revolta da Cachaça, de Antonio Callado


Imagine-se em casa, numa manhã tranquila, quando, de repente, chega uma entrega inusitada, sem nenhum bilhete, remetente ou endereço: um tonel cheio de cachaça. O objeto geraria surpresa e perplexidade; você se questionaria desconfiado? Foi exatamente essa a reação de Vito e Dadinha quando bateram na sua porta àquela manhã.


A peça de teatro escrita por Antonio Callado, em 1958, trata de um tema delicado, ainda mais para a metade do século XX, onde as diferenças sociais e raciais eram muito grandes. Mas, como defensor do socialismo e da igualdade entre pessoas, Callado conseguiu fazer com que nós refletíssemos sobre uma época de sofrimento e dor, meados de 1660.
"Ao que tudo indica, ainda mais lento é o ritmo das mudanças numa sociedade como a brasileira. O vaivém como método: crítica corrosiva de estruturas que se perpetuam."
Pode parecer meio confuso o tratamento das datas, afinal, estamos falando de um "metateatro" — um teatro dentro do teatro. Vito é um dramaturgo na peça; a cortina se abre com ele sentado escrevendo na maquina de escrever. Pela manhã, a curiosa entrega chega, à tarde, a campainha toca: um velho amigo do casal, Ambrósio, remetente do curioso tonel, entra em cena.


A enredo gira em torno dos três personagens em um curto período de tempo. Ambrósio quer que Vito conclua a peça que começou a escrever para o amigo atuar como personagem principal. Mas Vito enrola e começa a beber cachaça do tonel, Dadinha enche o primeiro copo, seguida por Ambrósio. Nesse contexto, os três personagens começam a relembrar os feitos da velha amizade.
"Existem as peças que são como voos tranquilos mas que acabam em queda, desastre, explosão na pista  ou mergulho no mar."
A Revolta da Cachaça, peça escrita por Vito na obra, alude a verdadeira, ocorrida no Rio de Janeiro em novembro de 1660 a abril do ano seguinte, que teve como objetivo contestar o monopólio da produção do destilado.  Seu personagem principal era João da Angola, que na época gerou muita confusão por ser negro; acabou sendo interpretado por atores brancos pintados. Antonio Callado, quis mostrar o quão absurdo era esse posicionamento da sociedade na época.
"Porque Callado foi desses escritores que escreviam o que tinha vivido, ou dos que vivem o que vão escrever um dia." 
Depois da bebedeira dos três personagens, ocorre o desfecho com suas surpresas. As rubricas são responsáveis pelas fortes emoções. As falas naturais geram no leitor os sentimentos que o autor esperava. Rápido como um golpe de espada, sem riso nem choro, apenas aplausos. 

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Nome:
A Revolta da Cachaça | Autor: Antonio Callado
Editora: José Olympio - 2016 | Páginas: 126
Data: 1958 | Esse livro no Skoob
Informações: Vito e Dadinha, um dramaturgo e sua esposa, ambos brancos, recebem a visita inesperada de Ambrósio, ator negro e antigo amigo do casal. O visitante leva um presente pouco comum, um tonel de cachaça para regar uma conversa cada vez mais confusa entre os três. Ambrósio tem um objetivo: convencer Vito a terminar a peça que o amigo dramaturgo lhe prometera e na qual seria protagonista. Incômoda, irônica e necessária ainda hoje pela atualidade das questões que apresenta.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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2 comentários:

  1. Ótima resenha Filipe. Acabou me lembrando o comecinho de um livro do Cony, o "Quase memória". A revolta da cachaça é pouco divulgada, o que faz muitos não terem ideia do que se trata, mas com certeza foi um dos primeiros passos para a democracia no país. Em tempos de tantas controvérsias políticas, uma leitura como a deste livro cairia muito bem a todos nós!
    Um abraço!
    Deh♥

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    1. Obrigado, Deh! Fico extremamente feliz de saber que gostou... :)

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