A Cabeça e a Cauda da Serpente


O corpo das cobras está dividido em apenas duas partes: cabeça e cauda. Ambas apresentam malefício em elevado grau à espécie humana e ambas também já deram grandes serviços às Parcas, pois há muito tempo tiveram duras disputas para saber qual delas devia ir à frente. Acostumada já estava a cabeça a ir à vanguarda, o que muito aborrecia a cauda. Com o passar do tempo a insatisfação da cauda foi aumentando, até que um dia se dirigiu aos céus, queixando-se:
— Não posso continuar nesta situação de acompanhar a cabeça para onde ela pensa ir. Diariamente rastejo léguas e léguas sem nunca poder ditar a direção que mais propícia me parece. Será que terei de passar o resto da vida submetendo-me a seus caprichos? Por que, deuses, não dispensais igual tratamento para nós duas? Que possui ela que não possua eu também? Veneno? Tenho-o igualmente poderoso e ativo. Meu pedido é que façais de modo a que, de vez em quando, eu possa ditar o que minha irmã cabeça deve fazer, e outra vez admita o que ela determinar. Estou certa de poder conduzi-la com tanta segurança quanto a que temos agora, não dando o menor motivo para queixas. 
A aquiescência do céu foi de cruel complacência. às vezes é inenarrável o mal causado pela sua benevolência, e melhor faria se se fizesse surdo a pretensões insensatas. Mas ainda não foi dessa vez que ficou o pedido sem atendimento. A nova condutora, que mesmo à luz do mais luminoso sol não enxergava mais claro do que na boca do lobo, nada mais fez senão ir de encontro às árvores, às pedras e até mesmo com outros transeuntes foi a topar. Por fim, culminou sua aventura mergulhando-se com sua irmã na estígia lagoa.
Assim como acontece à cobra, ai dos países que se deixam conduzir por homens de pouca visão!

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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