Os Dois Hóspedes de Humberto de Campos


Entre os muitos hotéis da cidade, aquele era o mais aristocrático. Situado em um dos pontos mais altos, era ali que se hospedavam os viajantes mais ricos e respeitáveis, alguns dos quais acabavam fixando residência no edifício. A Bondade, a Ternura, o Ódio, a Saudade, moravam nele. Jovem e sadia, a Alegria ocupava uma torre esguia e clara que o Sol fazia faixar, logo que amanhecia. A Tristeza, sempre vestida de negro, vivia num quarto sem luz, que apenas os morcegos visitavam. A Hipocrisia habitava um subterrâneo, e a Mentira, um compartimento estreito, cercado de portas falsas, que lhe facilitavam a fuga à simples aproximação da Verdade.
Era nesse edifício que morava, chamando a atenção de todos, um cavalheiro que, às vezes, se mostrava doce, polido, gentil, tolerante, e outras, irritado, hostil, intransigente, e, não raro, malcriado. Era vizinho do Ciúme e, sob o menor pretexto, alternava com ele, que era, em geral, secundado pela Dúvida, cujos aposentos ficavam juntos e tinham secreta comunicação interna.
Certo dia, esse cavalheiro, após uma discussão com os outros hóspedes, resolveu abandonar o quarto que ocupava no hotel. Foi um escândalo. Gritos, súplicas, desmaios, bater de portas e tampas de malas, tudo isso chegou até fora, alertando a vizinhança. O cavalheiro foi-se, porém, embora, deixando vazio o quarto em que o iam visitar, alternadamente, a Verdade e o Tormento.
À tarde, bateram à porta do hotel. Era uma senhora tímida, modesta, fisionomia bondosa, modos recatados, que desejava aposento. 
— Temos apenas um quarto, minha senhora. Foi desocupado hoje mesmo, — explicou o dono do hotel.
E, indicando-lhe o compartimento: 
— Entre! Aqui morava, até ontem, o Amor. 
— Quem? — estranhou a pretendente.
— O Amor. 
— Ah! Não serve! — tornou a candidata, retirando-se. — Eu não posso residir onde esteve esse senhor.
— E a senhora, quem é?
— Eu sou a Amizade! — explicou a recém-chegada.
E desceu, um a um, os degraus do edifício, que tinha, não se sabe porquê, a forma de um coração...

Compartilhe no Google Plus

Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
    Comente pelo Blogger
    Comente pelo Facebook

0 comentários:

Postar um comentário