O Terrível Massacre aos Messiânicos


O messianismo se refere à expectativa da vinda ou retorno à Terra de um novo líder religioso, representante de Deus, capaz tanto de renovar o modo de vida terreno quanto garantir o futuro reino dos céus a todos os fiéis. As condições de vida  que a população se via na época, marcada pela miséria econômica, opressão  política e falta de perspectivas futuras, predispunham-nas ao escapismo e ao misticismo. Contudo, as enormes transformações legadas pela separação entre Igreja e Estado, a partir da Proclamação da República, também exerceram seu papel na mobilização de substanciais massas populares em torno dos movimentos messiânicos.
O primeiro desses movimentos foi aquele liderado pelo Padre Cícero Romão Batista, na cidade de Juazeiro, no Ceará, em 1889. Ele adquiriu a fama de milagreiro, exercendo enorme influência sobre a população da cidade e das regiões rurais circunvizinhas. Tanto que Juazeiro passou a ser identificada como uma nova Terra Santa, onde era esperada a segunda vinda do Messias.
Com o tempo, Padre Cícero acabou por se tornar uma das forças políticas mais relevantes não apenas do Ceará, mas de todo o sertão nordestino. Seu poder e influência cresceram tanto que a Igreja Católica chegou a temer pelo surgimento de uma cisma em Juazeiro, ficando durante muito tempo suspenso das suas funções, o que em nada diminuiu sua influência e autoridade sobre os sertanejos. Porém, em 1930, foi excomungado pela Igreja e acabou morrendo poucos anos depois.
O movimento messiânico que se mobilizou em torno do padre Cícero era o oposto do que aconteceu em Canudos e Contestado, que legou um enorme número de vítimas, constituindo-se nos dois mais sangrentos episódios da história da República.


Deflagrado por Antônio Vicente Mendes Maciel ou, como veio a ser conhecido, Antônio Conselheiro. Esse personagem errava pelos sertões do Nordeste, levando uma vida ascética e pregando a fé cristã para os sertanejos. Rebelou-se contra a cobrança de impostos, criticando também o regime republicano. Incitou seus seguidores a fixarem-se numa fazenda abandonada na região de Canudos, sertão da Bahia. Sendo assim, as enormes desconfianças contra ele e sua gente motivaram uma incursão de um batalhão de infantaria  com mais de uma centena de soldados do exército contra o Arraial de Canudos, que resistiu ao ataque. Isso aumentou o prestígio do líder, que passou a ser conhecido como Conselheiro, incentivando a população do sertão a aderir o Arraial, que crescia cada vez mais. No seu auge, o Arraial de Canudos, considerado um campo santo e lugar da salvação, deve ter contado com vinte ou trinta mil habitantes.
A partir daí, o assinto passou a ser encarado como uma perigosa rebelião contra a ordem social, tendo como resultado o envio de uma terceira expedição militar dedicada à destruição do Arraial de Canudos. A ela seguiu-se uma quarta expedição, com mais de 1.300 homens, mas esta também foi derrotada, sendo morto seu comandante e forçada a bater em retirada.
Assim, em abril de 1897, foi enviada contra Canudos uma nova expedição, com mais de oito mil homens e vultuosos equipamentos. Em agosto daquele ano, o Arraial foi destruído, tendo sido mortos Antônio Conselheiro e quase todos os seus seguidores.


Entretanto, o maior de todos os conflitos messiânicos, o mais prolongado e que mais vítimas provocou parece ter sido aquele que eclodiu nos Estados de Santa Catarina e Paraná entre os anos de 1914 e 1917. Por se tratar de uma região cuja posse era disputada entre os dois Estados, passou a ser conhecida como Contestado.
No Contestado, houve uma diversidade de lideranças messiânicas, assim chamados monges. Percorriam o interior levando uma vida ascética, realizando batismo e prescrevendo curas através de bênçãos, rezas e ervas medicinais. O primeiro deles surgiu em 1840 e se chamava João Maria. Por volta da década de 1890, surgiu o segundo monge com o mesmo nome, sendo sucedido na primeira década do século XX por outro, chamado José Maria.
Estes passaram a agrupar as populações sem outras condições de subsistência nos chamados campos santos. A partir de 1914, inicia-se a repressão oficial contra o movimento, e em 1917, são encerradas as operações militares com a destruição dos últimos redutos messiânicos ou campos santos.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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