O Vento do Norte Bóreas e o Sol Hélio


Hélio e Bóreas, olhando para a terra, viram um viajante que se preparara muito bem para não ser surpreendido por uma borrasca. E era natural que ele assim se precavesse, pois era princípio de outono, estação em que nunca se sabe que tempo se enfrentará ao amanhecer um dia, mesmo que comece claro e ensolarado. E sempre o irisado arco-íris avisa que por essa época nunca é demais trazer-se uma capa. Foi pensando nisso que nosso viajante se agasalhou com grosso e pesado capote.
— Este está pensando — disse Bóreas — que pelo simples fato de trazer uma capa livra de qualquer eventualidade. Não pensou, porém, que me basta soprar com um pouco mais de violência e sua soberba capa voará. Até que seria bem engraçado ver como ele procederá em tal apuro. Vamos experimentar?
— Ora, deixemos de tantas palavras e vamos ver qual de nós dois conseguirá mais rapidamente despojá-lo do capote — respondeu Hélio. Podes começar. E para facilitar tua tarefa, eu ainda te permito que escureças meus raios.
Não houve necessidade de falar mais nada. De pronto, Bóreas aceitou o resto e inflando-se até ficar igual ao globo terrestre, fazendo estrépito de mil diabos, silvou, bramiu, soprou, produzindo violento furacão, que, soube-se mais tarde, destruiu casas e fez soçobrar os mais pesados navios, em todos os quadrantes do mundo. E todo este esforço, só tinha por mira tirar a capa do precavido cavaleiro!
Sentindo a violência do vento, o viajante fez todos os esforços que lhe eram possíveis para manter a capa bem colocada ao corpo, não deixando que o ar se interpusesse entre ele e o capote. Providencial lembrança foi esta. Bóreas, por mais que tentasse, não conseguiu livrar-se do desapontamento de ter perdido tempo. Quanto mais furor punha em seu sopro, mais tenazmente lutava o homem, bem enrolado no capote. Quando Bóreas se convenceu de que fora derrotado, Hélio emitiu novamente seus raios, eliminando o nublado reinante e fez com que incidisse sobre o cavaleiro, que em pouco tempo já suava por todos os poros, com muito calor, não conseguindo mais ficar encapotado. Tirou a capa esperando que em outra oportunidade lhe viesse a ser útil.
A astúcia é mais poderosa do que a força bruta. Sempre que a violência e furor puderem com um inimigo, é certo que a suavidade e a brandura sairão vitoriosas.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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