Consolo à Solidão


Houve a publicação de várias obras póstumas de Humberto de Campos que falecera em 1934, deixando grande carga cultural para a humanidade. Mesmo vinte anos após sua morte, existia ainda material a ser publicado, dentre eles, uma crônica escrita no ano de 1931 chamada " A Consoladora".
Nenhum rajá da Índia possuíra, jamais, um séquito como o daquele rei. Senhor de minas inesgotáveis, em que brilhava o ouro e a prata e rutilavam o diamante e a ametista, o rubi, a safira o topázio, a esmeralda, uma infinidade, em suma, de pedras luminosas e estranhas, aquele monarca vivia na opulência, mas cumprindo, na terra, um a terrível sentença: andar, continuamente, eternamente, perpetuamente, e sempre, dia e noite, na mesma direção.
Foi para minorar esse castigo que ele organizou aquela comitiva soberba convidando para sua companhia todos os príncipes e princesas dos reinos vizinhos. A Amizade, a Riqueza, a Mocidade, a Fé, a Esperança, o Amor, o Ódio, a Caridade, a Ternura, a Tolerância, o Prazer, a Coragem, a Alegria, tudo isso o acompanhava na sua grande viagem, através de planícies, de cidades, de desertos e de montanhas.
Ao fim de trinta anos de marcha tumultuosa, o suntuoso vagabundo voltou-se, por um instante, sobre o seu cavalo ajaezado, e olhou para trás.
– Onde ficou a Mocidade? – indagou do seu pajem
– Morreu, meu Senhor!
– E o Ódio?
– Ficou pra trás, – respondeu a mesma voz. – Ele era jovem e fadigou-se logo. Só o Ódio velho não cansa...
O soberano sorriu e continuou a sua grande marcha invariável. E à proporção que marchava para o Ocidente, notava que lhe iam ficando, um a um, os companheiros de aventura. Um dia era a Coragem; outro, o Prazer; outro, a Alegria. E assim o foram deixando todos, até que abandonado pela Esperança, última princesa da comitiva, ele se viu, uma tarde, sozinho, trôpego e velho, à margem de um caminho silencioso. O crepúsculo polvilhava de cinza o horizonte, e o soberano se pôr a chorar.
– Triste coisa – gemeu – triste coisa é a solidão! Antes a Morte, porque esta, ao menos, é uma companheira!
Ao levantar o rosto lavado de pranto, viu, porém, que não estava só, como supusera. Diante dele, fitando-o com uma doçura triste, erguia-se a mais formosa das princesas que seus olhos tinham visto.
– Quem és tu? – indagou, enxugando as lágrimas.
– A companheira dos que não têm companheiras... – respondeu-lhe a visão. – Eu espero por eles, sempre no fim da jornada.
O soberano fitou-a, reconhecido.
Era a Saudade.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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