A Tartaruga Voadora


Como diziam os antigos, jamais se pode dar um passo maior do que as pernas, ou colocar o chapéu onde a mão não alcança. Ao se desprezar tais conselhos, a imprudência faz morada. É preciso muito equilíbrio em nossas ações, se quisermos lograr êxito.
Havia uma tartaruga que tinha uma particularidade. Ao contrário de todas as outras suas irmãs, não era morosa nos movimentos e caminhava até com alguma rapidez. Um dia, cansada de ficar morando sempre no mesmo local, resolveu sair pelo mundo. Conhecer novas terras é desejo generalizado e o interessante é que os mais coxos são os que menos gostam de ficar no mesmo lugar. Embora tendo a particularidade de ser um pouco mais ligeira que suas companheiras, nossa tartaruga estava longe de ter condições de sair mundo afora. Por isso, contou seu desejo a dois patos, que logo se puseram às suas ordens para auxiliá-la.
— Vês como é livre o caminho aéreo pelo qual seguimos? — perguntou uma das aves, ao mesmo tempo que lhe mostrava a imensidão do universo. Por ele te levaremos às Américas, terás oportunidade de ver muitos povos, centenas de repúblicas e até alguns reinos. Poderás estudar os costumes de cada um, aumentando teu cabedal de conhecimentos, tal como o fez o valente Ulisses.
Uma vez combinado que sairiam os três em viagem, os patos arquitetaram um modo de conduzir a tartaruga. Pegaram um pau de bom tamanho e, cada qual sustentando-o por uma das extremidades, ordenaram a passageira: 
— Prende este bastão na boca e segura bem, que daqui a pouco sairemos para nossa aventura.
Logo depois alçavam voo as duas aves, levando a tartaruga dependurada pela boca. Todos que avistavam a estranha cena se admiravam por verem a pesada tartaruga voando rumo a sua casa.
— Olhem! — exclamavam todos. É milagre! Uma tartaruga voando! Ela é a rainha das tartarugas. 
— Isso mesmo, meus senhores — gritou a tartaruga arrebentando-se de orgulho. Não vos enganastes. Sou a mais importante das tartarugas do mundo, sou a rainha das tartarugas.
Ah! Como seria bem melhor se o orgulhoso animal se mantivesse calado! Ao confirmar em altos brados a sua realeza por estar voando mundo afora, a tartaruga desprendeu-se do bastão a que se agarrara e projetou-se com toda a violência no solo, espatifando-se à vista de quantos a admiravam.
A vaidade causou-lhe a morte.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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