Os Bizantinos.


Num imenso crepúsculo de sangue, a glória de Roma ia-se obscurecendo, submergida pelo cerrado nevoeiro nórdico, quando o imenso edifício dos Césares se dobrava ante o choque das hordas bárbaras. Quando os dois filhos do imperador Teodósio, Arcádio e Honório, dividiram entre si o domínio paterno, a Itália estava em plena dissolução: encerrado entre os muros de Ravena, Honório, imperador do Ocidente, sentia a maré dos bárbaros invadir o território romano, sem que contra eles se levantasse a antiga muralha das legiões. Hérulos, Gôdos, Hunos, Bávaros, Vândalos, todos convergiam para as planícies da Europa mediterrânea, considerada presa rica e certa. O Oriente estava mais calmo, menos pressionado pelo ímpeto dos bárbaros. Assim, a pouco e pouco, ante o progressivo desmoronar da organização romana, Bizâncio, a cidade que Constantino elegera sua capital, assumiu todas as prerrogativas de capital, até que, no ano 476, deposto o último imperador do Ocidente, Rômulo Augústulo, o chefe Hérulo Odoacre mandou as insígnias do poder a Bizâncio, como que querendo significar que o imperador do Oriente - então Leão I - era o único herdeiro do nome, e do domínio romano. E tal foi, de fato, durante muitos séculos, embora o seu domínio territorial se reduzisse, em determinados períodos, a bem pouca coisa.
A Leão I sucedeu Justino I, e a este o sobrinho, Pedro Sabácio, que assumiu o nome de Justiniano. Hábil chefe e ótimo conhecedor dos homens, ele soube descobrir, entre seus generais, os únicos que podiam enfrentar a avassaladora ameaça dos bárbaros: Belisário e Narses, os chefes guerreiros que reconquistaram para Bizâncio, em nome da antiga Roma, quase toda a Itália, e boa parte do Oriente e da África. Mas ainda maior se revelou a sabedoria de Justiniano , ao recolher, por intermédio de seus juristas, o máximo tesouro que Roma deixara: suas leias. O "Curpus Juris Civilis", isso é, a coletânea dessas leis, foi, por mais de mil anos, o único código da Europa, que passou  a ser governada pelo espírito romano, ainda quando o império havia séculos que desaparecera.


Bizâncio era uma curiosa e caótica cidade, ponto de reunião  de todas as ideias e dos costumes do Oriente e do Ocidente, um labirinto de templos, de casebres e palácios, uma babel de idiomas diferentes, uma mixórdia de raças e costumes. E sua história se lhe assemelha, pois não passa de uma história de fatos e figuras, em que os imperadores eram escorraçados do trono por uma revolta de pretorianos e desapareciam repentinamente, arrebatados pelo veneno ou pelos punhais das conspirações do Palácio. Maurício, Fócio, Constantino, Anastácio, são vultos que aparecem, por poucos decênios, à ribalta da história, sempre em guerra com os bárbaros ou com seus parentes, preocupados com as heresias religiosas, pelas lutas entre os Pontífices romanos e os Patriarcas de Bizâncio, e ameaçados finalmente, pela imensa onda muçulmana. Em 717, toma das rédeas do governo um grande general: Leal III, o Isáurico e com ele se inicia, para Bizâncio, um breve período de glória, que reconduzira as insígnias romanas aquele esplendor que parecia ter-se ofuscado.

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Sobre Filipe Penasso

Autor e resenhista do Pena Pensante, 22 anos, acadêmico de Relações Internacionais e Comissário de Voo por formação.
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